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Zona Franca: Manaus também tem a sua ‘Chinatown’

Até mesmo produtos típicos da cultura chinesa como confecções são encontradas no centro comercial da cidade – fotos: Ricardo Oliveira

Até mesmo produtos típicos da cultura chinesa como confecções são encontradas no centro comercial da cidade – fotos: Ricardo Oliveira

Com um número desconhecido pelo controle migratório da Polícia Federal do Amazonas, a presença de chineses em Manaus é forte aos olhos de quem caminha pelo Centro da capital.

E fica mais clara dentro dos inúmeros comércios que nascem com nomes brasileiros nas ruas da antiga Zona Franca, mas com uma assinatura típica chinesa: lojas que vendem de tudo, a preços bem em conta, mas sem a emissão de nota fiscal.

No senso comum de quem trabalha na região, a presença dos orientais começou tímida há aproximadamente cinco anos.

Mas ganhou densidade nos últimos dois anos, quando em ruas como a Quintino Bocaiúva, Doutor Moreira, Marcílio Dias, Guilherme Moreira, Henrique Martins e até mesmo a avenida Eduardo Ribeiro começou a nascer o comércio comandado por famílias chinesas, dando ao Centro um ar de ‘Chinatown’, como são conhecidas pelo mundo regiões urbanas com uma grande população de chineses numa sociedade não chinesa.

Dos poucos orientais que se sentem à vontade para falar, é comum a afirmação de que encontraram em Manaus um lugar bom para viver das vendas. A empresária Fernanda She, 32, que está na cidade há três anos, chegou ao Brasil por São Paulo (SP), onde viveu com a família por oito anos, no famoso centro comercial da rua 25 de Março.

“Menos bom”

Nascida no distrito de Futian, da cidade chinesa de Shenzhen que faz fronteira com Hong Kong, She conta que quando chegou à capital amazonense o comércio era “muito bom”. Hoje, na loja montada na rua Quintino Bocaiúva, entre as ruas Marcílio Dias e Doutor Moreira, o movimento caiu.
“Falaram para a gente que era muito bom [o comércio]. E era bom. Mas agora não é tão bom”, aponta.

Sem entrar em detalhes sobre o empreendimento que tem nas prateleiras uma diversidade de produtos assessórios como bolsas, bijuterias, celulares e smartphones, a empreendedora chinesa avalia que a queda nas vendas é culpa da alta do dólar.

Preocupada com a segurança dos produtos, She avalia que viver do comércio em Manaus é mais tranquilo do que em São Paulo. No entanto, ela relata que diariamente sofre com a ameaça de ladrões que tentam roubar a sua loja.

“Aqui já entrou assaltante com faca na mão e ameaçaram os funcionários. São quase sempre os mesmos”, afirma.

Na mesma rua Quintino Bocaiúva, o comerciante chinês Xian, 39, não sente tanto as ameaças de assalto no seu ponto instalado no quarteirão entre as ruas Doutor Moreira e Floriano Peixoto. Há dois anos em Manaus, ele comercializa confecções típicas da China, e comemora o bom volume diário de vendas, com um rendimento médio de R$ 2 mil.

Xian, que é nascido em Pequim, capital chinesa, aponta que não há previsão de voltar para a sua terra, primeiro porque seu filho nasceu em Manaus, há quase um ano. “Não tem previsão de voltar para China. Queremos ficar no Brasil porque é melhor para o comércio”, sustenta.

Lojas com diversidade de produtos acessórios como bolsas e capas para celulares sem a emissão de nota fiscal são comuns no comércio chinês

Lojas com diversidade de produtos acessórios como bolsas e capas para celulares sem a emissão de nota fiscal são comuns no comércio chinês

Antes do atual boom dos chineses em Manaus, no auge da Zona Franca comercial, alguns poucos chineses chegaram a Manaus para vender produtos importados e por aqui ficaram.

Entre eles estava o comerciante Bruno Huang, 68, que mora na cidade desde 1978. Huang que veio da ilha de Taiwan (vive como Estado independente da China, mas não reconhecido pela Organização das Nações Unidades – ONU) experimentou o melhor momento do comércio amazonense, até 1986.

Atualmente, pesa para ele e sua família no ramo de importados a queda no volume de vendas em quase 80% em relação ao período do comércio livre. “Hoje está mais difícil viver na legalidade. Os impostos são muito caros. E ficará pior com a subida do Pis e Cofins, de 9% para 12%”, aponta.

‘25 de março’

Por conta da presença chinesa no centro de Manaus, a comerciante Maria de Lourdes, 47, que tem um ponto na rua Henrique Martins, diz se sentir hoje na rua 25 de março, de São Paulo (SP), famosa pelo volume comercial e pela presença maçante dos chineses nas lojas, não como empregados, mas como proprietários.

“Eles estão chegando aos montes aqui [no Centro]. Parece até que são todos parentes. Depois que chegaram os primeiros e montam as suas lojas, sentiram que o negócio era bom e depois foram chamando os irmãos, tios e primos”, comenta Maria.

Para a comerciante Suely da Silva, 41, que trabalha na Marcílio Dias com a venda de vitamina de guaraná, os orientais da China ajudaram a melhorar o movimento do comércio local. “Eles chegaram aos poucos com as suas famílias e os mais jovens já até tiveram filhos nascidos na nossa cidade”, comenta.

Manauenses que trabalham para os chineses se dividem quanto ao tratamento dos patrões. O vendedor Diego Hajamim, 19, que trabalha há um ano na loja de Fernanda She, afirma que todos os funcionários têm carteira assinada, vale transporte e almoço. Já o vendedor da loja de outro chinês, que preferiu não se identificar, conta que o patrão não paga nem um salário mínimo.

Um tanto fechados ao diálogo com manauenses, a maioria dos filhos da República da China quer longa vida no Brasil

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De acordo com dados da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Manaus (CDL-Manaus), a participação dos chineses no comércio formal da cidade é de apenas 1%. Segundo o presidente da entidade, Ralph Assayag, a informalidade no comércio varejista cresceu muito com os orientais.

“Na informalidade eles trazem produtos a preços muitos baixos. Tem algo errado. Por isso reclamamos da concorrência desleal à Polícia Federal e queremos que as autoridades tomem as devidas providências”, reclama Assayag.

Para o delegado geral da Receita Federal no Amazonas, Leonardo Frota, se os chineses estiverem regularizados para viver no Brasil, o que mais preocupa o órgão é a informalidade.

“De repente se eles estiverem comercializando sem a abertura de empresa, sem os devidos registros da mão de obra e por isso prejudicando a arrecadação de tributos eles serão cobrados durante as fiscalizações”, sugere.

Quanto ao controle da chegada de produtos legais que chegam a Manaus e supostos contrabandos, o delegado geral da Receita aponta que é feito pela Alfândega do Porto. Procurada por telefone e por e-mail, a assessoria do órgão não atendeu às chamadas nem respondeu o e-mail até o fechamento desta edição.

Registro regional

Nas estatísticas do controle migratório da Polícia Federal do Amazonas, de 2013 a 2015 os chineses não aparecem entre os primeiros estrangeiros que passam por Manaus, segundo informa a assessoria de imprensa do órgão. De acordo com a PF, todo estrangeiro que vem ao Brasil a negócios ou estudos ele é obrigado a fazer registro junto ao setor de imigração da instituição.

Mas, se eles não aparecem, no controle regional, a assessoria diz que a maioria dos chineses que chegam à Manaus deve vir da cidade de São Paulo, onde efetuaram as suas regularizações de permanência no país, junto à PF daquela cidade.

Conforme a assessoria, nos acordos internacionais, o estrangeiro para vir trabalhar no setor comercial do país eles precisam chegar com visto voltado para atuar no setor, que tem um prazo e precisa ser renovado.

Para se manter no Brasil, segundo a PF, o estrangeiro pode entrar com pedido de permanência com base na prole, com a chegada da família. Outras formas de solicitar estabilidade em solo brasileiro seria, no caso de, ao chegar para trabalhar casar-se com uma brasileira, ou na situação em que vir com a esposa prover um filho nascido no Brasil. O filho brasileiro, com 18 anos, a lei brasileira que não tem a intenção de o separar pais, permite que ele escolha a sua nacionalidade.

Por Emerson Quaresma (Jornal EM TEMPO)

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