Economia

Você tem esse problema? compulsão por compras pode ser reflexo de transtorno psicológico

O exagero nas compras pode indicar um distúrbio ou compulsão – fotos: Divulgação

O consumo apenas do necessário ficou para trás e a mania da ostentação e esbanjamento está mais presente do que nunca no cotidiano das famílias brasileiras. Entretanto, ser adepto do consumo excessivo pode acarretar muitos problemas – que variam desde a dificuldade de relacionamento à ruína financeira. O exagero nas compras pode indicar um distúrbio ou compulsão, que requer atenção psicológica. Em tempos de crédito farto, juros altos e facilidade de acesso aos produtos, sobretudo no varejo on-line, consumir demais pode se tornar um caminho sem volta.

De acordo com especialistas, a pessoa compulsiva por compras sempre apresenta alguns sinais, um deles é mentir sobre seus gastos, esconder compras de familiares ou guardá-las em casa, fazendo de conta que são itens antigos.

“Geralmente as pessoas procuram ajuda quando já perderam o controle da situação”

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Para a psicóloga Shlyrlane Soares, o consumismo pode ser algo cultural, aprendido na própria dinâmica familiar ou pode ser sintoma de desregulação emocional. Segundo a psicóloga, esse sintoma é caracterizado como transtorno obsessivo compulsivo.

“Geralmente as pessoas procuram ajuda quando já perderam o controle da situação ou quando um familiar percebe. Isso pode já estar causando danos graves como culpa, dívidas e muitas vezes depressão, como comorbidade do problema”, disse a psicóloga, acrescentando que existe tratamento psicoterápico e em alguns casos graves, o uso de medicamentos, receitados por psiquiatras.

A compulsão esse sintoma é caracterizado como transtorno obsessivo compulsivo

“A compulsão por compras é um sintoma, que pode estar presente no transtorno obsessivo compulsivo. Está presente também em pacientes com bipolaridade, quando ela entra na fase da mania e fica compulsiva por compras. A oniomania é outro termo usado especificamente para classificar a compulsão por compras”, falou.

Além de refletir problemas psicológicos, esconder dívidas com mentiras, a compulsão por compras pode afetar seriamente os relacionamentos. Parceiros podem tentar ajudar, mas diante da dificuldade da pessoa consumista em admitir o próprio descontrole, brigas e separações podem ocorrer.

Conforme especialistas, o compulsivo sempre dá a desculpa de que fazer compras é um hobby, que “melhora a autoestima”. Tudo isso para tentar esconder a compulsão.

“Já comprei coisas sem necessidade, como tênis. Tenho muitos e alguns não uso”

Para quem passou pela fase da compulsão por compras, as lembranças não são boas. É o caso do jornalista Junio Amazonas, de 23 anos, que ficou com o nome restrito, devido as dívidas com cartão de crédito.

“Quando comecei a trabalhar, comecei a gastar bastante. Meu nome foi parar no SPC, devido ao excesso de compras, pois comprei muito e não paguei. Já comprei coisas sem necessidade, como tênis. Tenho muitos e alguns não uso. Tenho muita camisa preta e compro sem necessidade, só pelo prazer mesmo. Não conseguia ir ao shopping e não comprar nada. Já pedi dinheiro emprestado para minha mãe e de amigos para pagar dívidas, mesmo assim continuava devendo. Parei quando o meu nome foi para o SPC. Hoje sou vou controlado, compro apenas o necessário”, disse.

Muitas pessoas são capazes de quase tudo para obter coisas materiais

A estudante de direito Thaylane Enes, de 23 anos, relembra que a compulsão por compras começou com 16 anos. “Não gostava de repetir roupas. Usava uma ou duas vezes não queria mais. Com isso gastava bastante. Já comprei várias blusas do mesmo modelo, só mudava a cor. Comprava bem mais coisas do que meu salário poderia pagar. Além de gastar o meu, ainda gastava o da minha mãe. Conforme fui ganhando mais, os meus gastos também cresceram. Nunca me importei com o preço quando eu queria consumir algo. Era uma sensação enorme de prazer”, relembra a universitária.

“Comprava bem mais coisas do que meu salário poderia pagar”

Thaylane Enes começou a mudar o comportamento após um novo relacionamento. Em 2016 conheceu um rapaz que logo se transformou em namorado. Era o oposto dela e ajudou a parar com a compulsão. “Com ele era tudo muito regrado. Só comprava o essencial. Aprendi muito a economizar com ele. Hoje eu tenho outro pensamento. Gastava muito dinheiro com sapatos, roupas e cabelo. Eu era muito compulsiva. Hoje em dia não gasto mais do que ganho. Sempre sombra alguma coisa para passar o mês. Hoje, por exemplo, prefiro guardar dinheiro para me alimentar do que fazer o cabelo. Antes era o contrário, eu optava pela vaidade”.

Economista

O Economista Ailson Rezende, dá dicas para pessoas endividadas. A ajuda da família, segundo ele, é essencial para a pessoa compulsiva. “Em todos os casos, seja no plano social ou econômico a pessoa terá que contar com ajuda da família. Sozinha ela não vai conseguir sair. As pessoas consumistas estão sempre endividadas, sempre fecham o mês no vermelho. Olham a promoção como vantagem e sempre compram sem observar se tem necessidade do produto e se vai poder pagar”, falou.

A compulsão por compras é um assunto que está cada vez mais sendo temas de debates

Após a pessoa receber o apoio da família, o economista explica que a pessoa compulsiva precisa de uma educação financeira doméstica. Organizar quanto ganha e quanto pode gastar, para não passar do limite.

“Primeiramente é preciso observar se realmente tem necessidade de comprar o que está adquirindo. O consumista, geralmente, compra um produto e após dois dias, não o usa mais, só aí chega a conclusão de que não deveria ter comprado. Normalmente, o consumista sempre acha que está levando vantagem, na verdade ele compra muita coisa e, se for avaliar, vai perceber que poderia comprar tudo por muito menos”, pontuou.

Para quem chegou ao limite e resolveu parar, Ailson Rezende explica que o primeiro passo é eliminar todos os focos de onde poderiam surgir compras. “Cartão de crédito, cheque. Mas, eliminar mesmo. Quebrar e jogar fora os cartões já é um passo. A pessoa vai experimentar sensação de importância diante do desejo de comprar, mas vai aprender que daí virá sua educação financeira doméstica. Todos temos sonhos, porém para os compulsivos os sonhos podem virar pesadelos”, explicou.

O compulsivo, segundo especialistas, sem prazer em comprar

Para ajudar pessoas endividadas, o Procom-AM, segundo Ailson Rezende, criou um departamento em que especialistas dão orientação financeira.

Pessoas que gastam além dos limites deixam de realizar seus objetivos, como comprar uma casa ou liquidar dívidas, por causa de vício. Além de buscar terapia, utilizar ferramentas para controlar finanças pessoais é outra sugestão para quem deseja equilibrar suas contas.

“Todos temos sonhos, porém para os compulsivos os sonhos podem virar pesadelos”

A compulsão por compras é um assunto que está cada vez mais  em debate.  O assunto é tema da obra “Mentes consumistas: do consumismo à compulsão por compras”, escrito pela médica psiquiátrica Ana Beatriz Barbosa Silva. Para a autora, as pessoas do século XXI entraram em uma grande crise existencial. Para elas o ter vale mais do que o ser. Segundo a autora, enquanto o ser nos leva à posse não de objetos, pessoas ou coisas, mas de nós mesmos, o ter por sua vez, nos conduz à posse material de coisas que acabam por despertar e fomentar o egoísmo e a falta de altruísmo nas relações interpessoais.

O compulsivo sempre dar a desculpa que fazer compras é um hobby ou melhora a autoestima

Simplificando, enquanto o ser prioriza as pessoas, o ter prioriza coisas que podem ser compradas por valores determinados pelo mercado, e é exatamente aí que está todo o debate em questão.

Muitas pessoas são capazes de quase tudo para obter coisas materiais que as fazem se sentir poderosas, únicas ou celebradas. Entretanto, o consumismo, por sua vez, tem o seu custo para a sociedade.

Conforme a autora, nos últimos 15 anos o número de pessoas que chegaram em seu consultório aparentemente com quadros ansiosos ou depressivos aumentou de forma significativa. No entanto, segundo a psiquiatra, por trás de tanta ansiedade, angustia e depressão, grandes partes dos pacientes escondia uma espécie de segredo, quase sempre relacionado à dívidas, contraídas ao longo de muitos anos.

Segundo Ana Beatriz Barbosa Silva, a sociedade moderna e seus mecanismos de estimulo ao consumo desenfreado tem deflagrado uma nova forma de adoecimento: a compulsão por compras. Quem sofre desse transtorno experimenta quadros clínicos semelhantes aos dos dependentes químicos, e o problema, muitas vezes está oculto, sob a forma de ansiedade ou depressão. Buscar tratamento ou ter consciência do problema e buscar ajuda, já é um grande passo para sair das dívidas e buscar uma melhor qualidade de vida, com a tranquilidade financeira na vida pessoal.

Mara Magalhães
EM TEMPO

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