Cultura

Um dos maiores nomes da arte do país, Tunga morre aos 64, no Rio

Tunga foi dos mais inventivos e enigmáticos artistas do cenário nacional - foto: divulgação

Tunga foi dos mais inventivos e enigmáticos artistas do cenário nacional – foto: divulgação

Morreu nesta segunda (6), aos 64, o artista plástico Tunga, um dos nomes mais relevantes e celebrados das artes visuais do país. Ele sofria de câncer e estava internado desde 12 de maio no hospital Samaritano, na zona sul do Rio. Seu corpo será enterrado no cemitério São João Batista, em Botafogo, nesta terça (7).

Tunga foi dos mais inventivos e enigmáticos artistas do cenário nacional. Em quase meio século de carreira, construiu uma obra plástica incontornável na arte contemporânea, mesclando referências sutis à herança construtiva que dominou as vanguardas nacionais a um universo simbólico único.

Seu mundo de tranças de aço e cobre atravessando pentes, ímãs ultrapotentes, vidros frágeis, caveiras, esqueletos, sereias, pérolas e sementes foi ao longo dos anos chamado de surrealista, delírios orquestrados como parte de uma mesma sinfonia.

Nascido em Pernambuco e radicado no Rio desde os anos 1970, Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, que se metamorfoseou em Tunga, era filho de um poeta. Desde seus primeiros desenhos, dizia que as obras partiam de reflexões a meio caminho entre versos e teorias filosóficas e científicas, “nunca demonstráveis nem refutáveis”, ele frisava.

No campo da escultura, maior parte de sua obra que surgiu sempre aliada à performance, ele usava materiais como cobre, aço e ímãs para arquitetar construções que lembrassem o corpo humano, tecidos, pele, cartilagens e esqueletos, revestindo de dimensão carnal tudo que parecia surgir como algo de natureza robusta, industrial.

É nesse sentido, falando em “construção rigorosa do imaginário”, que Tunga juntou duas pontas de um espectro na arte contemporânea que antes pareciam irreconciliáveis -o minimalismo obcecado pela força bruta da matéria, de Richard Serra a José Resende, e a sensualidade sanguínea de obras sobre o desejo e o sexo, lembrando a dor dos corpos incomuns de Louise Bourgeois.

O erotismo, enquanto forma de manifestação do instinto e do desejo, parece guiar grande parte de suas pesquisas estéticas. Em um filme pornográfico que realizou, cristais e pedras surgem como transmutação de fluidos corporais, saliva, urina e fezes. Tunga parecia apontar uma espécie de alquimia latente na própria existência, de corpos em transformação.

Sempre vestindo ternos de cores extravagantes, Tunga era um dândi tropical, lembrando às vezes Flávio de Carvalho, um artista de rigor absoluto em sua obra plástica que sabia ao mesmo tempo desafiar a atmosfera espessa que pesa sobre o mundo da arte.

Numa de suas primeiras séries de desenhos, “Museu da Masturbação Infantil”, dos anos 1970, Tunga já indicava esse caminho dúbio.

Suas tranças de chumbo com laços coloridos nas pontas criadas na década seguinte parecem ter sido o primeiro passo de um arco narrativo que atingiu seu auge nas obras mais recentes do artista, em que peças de argila moldadas à mão se equilibram sobre hastes metálicas.

Cronologia

Tunga morreu num momento de transformação em sua obra. Desde o começo da década de 1980, quando representou o Brasil na Bienal de Veneza, e depois de uma série de passagens pela Bienal de São Paulo e mostras no MoMA, em Nova York, na Whitechapel, em Londres, no Jeu de Paume, em Paris, entre outras instituições de peso, ele se firmou como o menos solar e mais soturno dos artistas do país.

O esqueleto que pendurou numa espécie de rede debaixo da pirâmide do Louvre, em Paris, coroava essa descida ao inferno. Seu boneco tétrico se equilibrava tendo como contrapeso outras bolsas cheias de caveiras, uma versão fossilizada de obras que fez ao longo da vida em que frágeis objetos surgem suspensos por redes esgarçadas.

“True Rouge”, de 1997, uma de suas obras mais famosas agora no Instituto Inhotim, nos arredores de Belo Horizonte, é uma dessas peças içadas, com frascos e ampolas de vidro cheias de um líquido vermelho, como se fosse sangue.

Nos últimos anos, depois de cicatrizadas as feridas e tendo sobrado só os ossos, talvez um indício do que ele chamava de um “reencontro com o arcaico”, Tunga foi abrindo mais o traço de seus desenhos e ampliando sua paleta de cores para incluir também tons mais solares, talvez, como dizia, lembrando sua vida à beira do mar.

Sua morte coincide com um momento em que ele afirmava ver “mais mistério na luz do que no escuro, na morte”.

Por Folhapress

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