Economia

‘Uberização’ da economia gera debate legal e na corrida presidencial dos EUA

A revolução de costumes criada pela nova economia chegou aos tribunais e à disputa presidencial dos Estados Unidos. Em ambos os casos, uma questão básica: como regular serviços de compartilhamento como Uber e Airbnb sem emperrar a inovação ou privar os usuários de seus benefícios.

As novas tecnologias deram uma roupagem moderna ao eterno debate entre democratas e republicanos, em torno do papel que o Estado deve ter na economia. Os democratas demonstraram preocupação com os direitos dos trabalhadores a serviço de empresas como Uber, que usa um aplicativo para conectar passageiros e motorista com a facilidade de alguns toques no celular.

“A chamada economia sob encomenda está criando oportunidades estimulantes e gerando inovação, mas também levanta questões difíceis sobre as proteções ao trabalhador e o que será visto como um bom emprego no futuro”, disse Hillary Clinton, favorita para ser a candidata democrata nas eleições presidenciais do próximo ano.

De olho no eleitorado jovem, a maioria dos candidatos republicanos abraçou com entusiasmo a “uberização” da economia, como o fenômeno tem sido chamado. Para eles, é um exemplo dos benefícios criados para a economia quando o governo sai do caminho. O senador Marco Rubio, um dos presidenciáveis do partido, lançou este ano um livro chamado “American Dreams” (sonhos americanos), no qual um dos capítulos é chamado “Torne a América segura para o Uber”.

Num deboche à preocupação de Hillary, Rubio disse que ela está “presa ao passado e não entendeu como o mundo está mudando”.

A realidade, contudo, é que ninguém parece saber exatamente para onde caminha esse admirável mundo novo. Na semana passada, um juiz da Califórnia aceitou uma ação trabalhista exigindo que os 160 mil motoristas do Uber no Estado americano sejam reconhecidos não como autôomos, mas empregados da empresa, com direito a benefícios. Caso a ação saia vitoriosa, poderá ser um divisor de águas e uma ameaça para o modelo de negócios da chamada “economia compartilhada”.

O reconhecimento dos motoristas como funcionários não apenas abalaria o lema “seja seu próprio patrão” propagado pelo Uber, mas encolheria seus lucros e aumentaria os preços para os passageiros. Arun Sundararajan, professor de Finanças da Universidade de Nova York, acredita que um meio termo entre os direitos trabalhistas e a flexibilidade da nova economia é possível. Para isso, afirma, é preciso adaptar a legislação à nova realidade e ampliar as categorias de emprego para além das tradicionais, como funcionário em tempo integral, meio expediente e autônomo.

“Precisamos de pelo menos mais uma categoria, que se aplique a pessoas que trabalham em múltiplas plataformas e possam manter sua independência, mas ao mesmo tempo contem com uma estrutura de contribuição que garanta a elas os mesmos benefícios de outros trabalhadores”, disse ele à reportagem. “Os motoristas do Uber não querem ser funcionários em tempo integral. Eles querem liberdade, mas com benefícios. Por isso é preciso criar uma nova categoria”.

O modelo de negócios, porém, não será quebrado, prevê Sundararajan. Da mesma opinião é o ex-chefe de marketing da Kodak, Jeffrey Hayzlett, para o qual a economia compartilhada, embora não seja perfeita, chegou para ficar, sobretudo pela atração que ela tem sobre os jovens. “A realidade é que os prós são bem maiores que os contras”, escreveu ele no portal Huffington Post

Enquanto a legislação não se adapta aos novos tempos, a velha economia vai deixando perdedores pelo caminho. Poucos dias atrás, tarde da noite em Washington, um taxista ofereceu seus serviços à reportagem ao perceber que pedia um carro do Uber. A curta viagem foi preenchida pelas lamúrias do motorista, o etíope Abbas, que emigrou há 23 anos para os EUA.

“A queda nas corridas foi brutal. As pessoas só usam o Uber”, disse ele, que trabalha há oitos anos como motorista na capital americana. “Se alguma coisa não mudar o governo em breve vai ter que começar a distribuir vales-refeição aos taxistas para podermos alimentar nossas famílias”.

 

Por Folhapress

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