Economia

Turismo científico no Amazonas ganha vida

Estudantes de arquitetura passearam pelo rio Negro - foto: Ricardo Oliveira

Estudantes de arquitetura de uma faculdade da cidade passearam pelo rio Negro – foto: Ricardo Oliveira

Há mais de 30 anos estacionado com os mesmos produtos turísticos, o Amazonas está a um passo de consolidar um novo nicho de mercado do setor. O turismo científico começa a ganhar mercado conjugado com turismo de aventura, lazer, bem como o de base comunitária, empreendido pela startup Praquerumo, em parceria com uma rende de empresas especialistas em receptivo e a Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

A primeira grande experiência da empresa nascente encerrou neste sábado, com um grupo de mais de 70 pessoas, entre alunos e professores da Escola da Cidade, que é uma faculdade de arquitetura e urbanismo da cidade de São Paulo, que investiu, aproximadamente, R$ 50 mil em passagem aérea e hospedagem, de acordo com o CEO da startup, Tayke Monteiro.

O roteiro montado pela Praquerumo envolveu obras de projetos do famoso arquiteto Severiano Mário Porto, como a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o centro histórico, um passeio de dois dias em comunidade ribeirinha do rio Negro, no município de Iranduba e cachoeiras de Presidente Figueiredo, bem como a Usina Hidrelétrica de Balbina. “São roteiros que no turismo convencional não percebemos”, observa Tayke.

Segundo o CEO, o novo nicho de mercado surgiu para a empresa após a equipe montar um mapa sobre várias iniciativas turísticas do Amazonas, na Região Metropolitana de Manaus (RMM), o que despertou o interesse de muitas universidades do país, que começaram a procurar a Praquerumo em busca de um turismo mais específico.

Na primeira grande experiência, com a Escola da Cidade, a Praquerumo incluiu no roteiro o turismo de base comunitária. “Foi interessante indicá-lo como opção pela troca cultural, principalmente para pessoas que moram em um grande centro urbano como São Paulo, e que para estudantes de arquitetura foi muito bom como forma de proporcionar a eles esse intercâmbio cultural, com todo o conhecimento do ribeirinho”, explica Tayke.

Para Tayke, que começou a empreender com a Praquerumo (praquerumo.com.br) com foco inicial no turismo de aventura, o turismo científico agrega muito valor à região, além de ser um modelo que gera mais receita. “Ela é muito interessante, porque traz um retorno maior sem dar tanto trabalho quanto o turismo individual, uma vez que fechamos contrato para 20, 30, 70 pessoas e é muito mais fácil de operacionalizar”, afirma.

Informação

O empreendedor observa que muitas universidades do país fazem com frequência esse tipo de atividade científica com seus alunos, a fim de desenvolver projetos, e as paulistas escolhem principalmente lugares mais próximos como os Estados de Goiás e Minas e a Região Sul. Ele observa que as instituições não escolhem Manaus por falta de informação e de segurança.

“Primeiro, porque eles não sabem o que vão encontrar por aqui. Mas, a partir do momento que geramos conteúdo e informações, conseguimos trazer eles para cá. Se colocarmos na ponta do lápis, a Amazônia é um lugar que poucas pessoas têm oportunidade de visitar e talvez seja a universidade um caminho para que eles possam conhecer mais”, avalia.
Depois dos estudantes de arquitetura, a startup vai receber mais três grupos neste ano, um em janeiro, da área de geologia, para visita cientifica no Geoparque de Presidente Figueiredo. E para ampliar a receita com esse nicho de mercado, Tayke diz que a Praquerumo continuará desenvolvendo conteúdo sobre a região, agora de olho no turismo científico, buscando também universidades dos EUA e da Europa.

Manaus na pauta da faculdade

Sem deixar de citar o calor, mas também a hospitalidade e a simpatia do povo manauense, pela primeira vez no Amazonas, a estudante de arquitetura Mably Rocha, 27, afirma que ficou muito satisfeita com o que viu e viveu na experiência de turismo científico na Região Metropolitana de Manaus (RMM), organizado pela Praquerumo.

Mably explica que a Escola da Cidade, onde cursa o terceiro ano, tem uma programação de seis viagens durante os 4 anos do curso, no programa chamado “Escola Itinerante”. Segundo ela, a proposta da faculdade é estudar arquitetura no ambiente além de sala de aula. Nas quatro primeiras viagens, concentradas no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Brasília, o objetivo é entender como a arquitetura se consolida no Brasil.

Já nas duas últimas viagens, o objetivo é buscar que os alunos entendam outras questões demandadas pelo projeto chamado Contracondutas, que no Amazonas tem o objetivo de fazer com base científica o mapeamento do impacto ambiental e social da usina hidrelétrica de Balbina. “Até o ano passado estávamos com as duas últimas viagens para o Chile e a Bolívia. Agora, com o Contracondutas, é a primeira vez que entrou Manaus”, diz.

Dentro da programação de estudos da Escola da Cidade, além do foco na hidrelétrica, os alunos vieram a Manaus para entender como a população vive e conferir se os seus projetos habitacionais para moradores de áreas ribeirinhas, cobrados pela faculdade no semestre, atendem às necessidades da cidade.

Mably explica que, normalmente, os projetos que os alunos desenvolvem na faculdade duram apenas um bimestre, mas por conta da viagem, e da relação com o Contracondutas, ele se aplica no semestre inteiro. “A ideia do primeiro bimestre nós tínhamos que pensar à distância e desenvolver um projeto e pensar nessas condições. No segundo, depois da viagem, vamos repensar o projeto para avaliar se realmente ele faz sentido”, diz.

Os projetos dos alunos, de acordo com Mably, buscam oferecer alternativas ao plano diretor municipal de manter a relação das pessoas que moram em palafitas à beira do rio e dos igarapés, sem a necessidade isolá-los em projetos habitacionais em regiões longe das águas, desconsiderando ainda a relação de vizinhança.

Intercâmbio com comunidades

O turismo científico vale a pena se levar em consideração a sustentabilidade da região. A Praquerumo incluiu no roteiro a comunidade do Saracá, localizada a cinco horas de Manaus em barco de pequeno porte, no município de Iranduba (a 25 quilômetros de Manaus), como ponto estratégico do roteiro onde os visitantes puderam experimentar o fruto do empreendedorismo ribeirinho, no restaurante da comunidade.

Em funcionamento há 4 anos, o restaurante comunitário, que envolve 79 famílias, ofereceu ao grupo paulista, formado por mais de 70 pessoas, uma refeição feita com 80% de produtos cultivados e extraídos na comunidade, segundo o gerente do empreendimento Janderson da Silva Mendonça, 21. “Os principais produtos extraídos na comunidade são o tucunaré, o frango caipira, o cheiro–verde, a cebolinha, o tomate, a melancia, o abacaxi”, aponta.

Construído na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro, com apoio da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), a partir do projeto Renda, o restaurante, que era um sonho da comunidade, atende um volume igual de turistas brasileiros e estrangeiros, de acordo com Janderson. “Como responsável por ele, eu informo à comunidade quando um grupo virá, para prepararmos as comidas com produtos que podemos comprar dentro da comunidade”, conta.

A informação da visita de grupos de turistas chega a ele por telefone, com sinal capitado por uma antena rural instalada na comunidade pela operadora Oi. “Seria muito bom se todo mês viesse à comunidade ao menos quatro grupos de no mínimo 20 ou 40 pessoas, para que nossa comunidade pudesse evoluir com o turismo. Hoje a frequência é de uma a duas vezes apenas, na média de 25 pessoas”, diz.

Além do restaurante, o turismo de base comunitária no Saracá conta ainda com o serviço de guia, que apresenta a comunidade aos turistas  a casa do artesanato. A estudante Gisele Emily Mendonça Figueira, 16, que estava entre os jovens que apresentaram o lugar aos estudantes de arquitetura, avalia que o turismo pode ajudar a comunidade a se desenvolver. “Se eu mudar de ideia sobre fazer uma faculdade de jornalismo, eu queria fazer turismo para ajudar a comunidade nessa área”, afirma.

Por Emerson Quaresma
Jornal EM TEMPO

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