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‘Tudo que aprendemos juntos’ chega às salas de cinema de Manaus

Lázaro Ramos dá vida ao violinista Laerte, que transforma a realidade de adolescentes - foto: reprodução

Lázaro Ramos dá vida ao violinista Laerte, que transforma a realidade de adolescentes – foto: reprodução

Sucesso de crítica nos Estados Unidos (EUA) e em países da Europa como a Alemanha e a Suíça, o longa nacional ‘Tudo que aprendemos juntos’ chegou às salas de cinema de Manaus, com a promessa de emocionar o público e sentir orgulho do cinema nacional. A equipe EM TEMPO conferiu o lançamento do filme para a região Norte do país, realizado na quarta-feira (9), durante o 1º Ciclo de Debates e Capacitação Audiovisual de Tocantins, realizado em Palmas, pelo Instituto Soma Palmas (Ispa), Spatium Arte e Cultura e Associação Tocantinense de Cinema e Vídeo (ATCV).

Com a direção de Sérgio Machado e o ator Lázaro Ramos como protagonista, o filme que tem potencial para indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, busca fugir da fórmula convencional da narrativa do cinema brasileiro da violência pela violência, impressa em longas de sucesso como Tropa de Elite e Cidades de Deus, por exemplo, que não apontam uma luz no fim do túnel. Machado, que é filho de músico, explica que “Tudo que aprendemos juntos” tem como ideia central a educação e a cultura como elementos de transformação.

Vivida na favela de Heliópolis, a história baseada na peça “Acorda Brasil” conta – sem perder ritmo – a construção da relação do talentoso violinista Laerte (Lázaro Ramos) com alunos de uma escola pública que participavam de um projeto social que buscava transformá-los em uma pequena orquestra – hoje Orquestra Sinfônica de Heliópolis.

Laerte que se cobrava muito para alavancar a sua carreira viveu uma frustração na sua primeira oitiva para integrar aos quadros da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), o que o levou a virar o professor do projeto na favela.

Num mosaico de várias narrativas secundárias, a obra se fortalece com cada um dos pequenos dramas construídos a partir de histórias reais, extraídas do cotidiano dos adolescentes da comunidade, convidados a participar do filme. Entre os relatos estavam o envolvimento com a criminalidade e os efeitos da desestrutura familiar, intensamente mostrados na interpretação dos atores Kaique Jesus (Samuel) e Elzio Vieira (o VR). O filme conta ainda com a participação especial do rapper Crioulo, no papel do traficante Cleyton, que comanda a comunidade.

“Houve de fato histórias reais que foram usadas pelos adolescentes na cena como argumentos para justificar a presença ou não nas aulas no sábado. Os relatos fizeram o Lázaro Ramos chorar, o que mostrou para nós o momento que marca a transformação do professor pelos alunos”, comenta Machado, também diretor de filmes como “Cidade Baixa”, e roteirista de “Abril Despedaçado”.

O diretor conta que essa essência do filme nasceu quando no primeiro ensaio, com a preparadora de elenco Fátima Toledo, pediu-se que os meninos e as meninas falassem um pouco da vida deles. “Vi naquele momento que esses adolescentes já tinham sofrido o que muito adulto não sofreu a vida inteira. Achei muito duro. Para amenizar o clima, a Fátima pediu para que cada um mostrasse o talento que tinha e ali descobrimos grandes dançarinos, músicos, poetas e uma adolescente soprano que, na Alemanha, quando mostramos o filme, as pessoas acharam até que ela estava sendo dublada”, conta.

Valorização

O lançamento diferenciado do ‘Tudo que aprendemos juntos’ para o Norte, com uma avant-première numa das capitais da região, segundo vem como estratégia de melhorar a bilheteria do e vencer o preconceito sobre o cinema nacional. “O desafio no Brasil é que estamos lançando o filme entre “Jogos Vorazes” e “Star Wars”. Há indicadores que lá fora estamos muito bem. E é ridículo o volume de dinheiro que temos com blockbuster americano”. Machado avalia que a produção de cinema no Brasil está descentralizada e tem bastante recurso disponível. Ele diz achar até melhor filmar no Brasil do que na maioria dos países do mundo. Para eles, a produção brasileira enfrenta dois problemas, um que já está sendo enfrentado, que é conseguir fazer o filme, mas tem ainda a dificuldade de desenvolver o projeto, de escrever a história.

O principal desafio do cinema no Brasil, para o diretor e roteirista, é a distribuição que é muito inferior à das grandes produções estrangeiras. Ele observa que a divulgação dos filmes nacionais é quase sempre com material simples, enquanto “o filme americano chega com um negócio 30 vezes maior”.

“É muito mais fácil para um filme estrangeiro vender no Brasil, onde temos afirmações absurdas como, por exemplo, o cara que chega na bilheteria e diz com desdém que o filme é nacional. Por isso essa ideia de vir um pouco para o Norte, onde as pessoas diziam que não dá público. Mas eu sempre questionei: como você sabe se isso nunca é uma prática? Por que não lançar uma vez em Belém, outra vez em Manaus e outra em Palmas?”, diz Machado.

O diretor que tem filmado documentários no Norte, aponta as belezas da região, mas sugere que ela não pode ser só cenário. “A região tem que ser lugar de debate. O pessoal estranhou quando eu quis trazer para Norte, porque no máximo que eles vão, fora do eixo Rio São Paulo, é Minas Gerais, Pernambuco no Nordeste e Rio Grande do Sul, no Sul”, afirma.

Inspiração

Inspirado na peça “Acorda Brasil”, escrita por Antônio Ermírio de Moraes, que se baseia em experiência do terceiro setor de Heliópolis, sobre a criação Instituto Baccarelli, o filme tira da peça, segundo Machado, apenas a relação central entre o professor e dois garotos. Na vida real, Kaique e Elzio relataram experiências com Organizações Não Governamentais (ONGs) que ajudaram a superar o ambiente onde cresceram.

Para Kaique, que já atuou em “Linha de passe” (Walter Salles e Daniela Thomas), conta que contou muito a experiência que ele viveu numa ONG próximo a sua casa. Ele lembra de casos em que a coordenadora precisou ir resgatar adolescentes em boca de fumo. “E hoje muitos desses caras são professores lá na ONG”, conta.

Elzio que é dançarino e passou a fazer artes cênicas por conta do filme, avalia que ele é um bom exemplo de que, assim como no filme, na vida real a música salva. “Tive um bom professor de dança. Anos depois eu e outros amigos formamos um coletivo, com recursos próprios, que buscava salvar mais pessoas. Eu já tive professores que falavam que eu ia ser lixeiro. Mas esse trabalho social me ajudou a chegar até aqui hoje”, comemora.

* O repórter viajou a convite do Ispa, Spatium e ATCV

Por Emerson Quaresma

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