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Tradicional procissão fluvial de São Pedro é cancelada pela primeira vez em Manaus por falta de coletes salva-vidas

Aproximadamente 2 mil fiéis estiveram presentes no evento - foto: Ricardo Oliveiro

Mais de 1,5 mil fiéis estiveram presentes no evento – foto: Ricardo Oliveira

Realizada há mais de meio século pelo rio Negro, a tradicional procissão de São Pedro, que deveria ter ocorrida na tarde desta quarta-feira (29), foi impedida, pela Marinha do Brasil de prosseguir seu percurso fluvial, devido à falta de coletes suficientes para atender a demanda de, aproximadamente, 2 mil fiéis. Além disso, a irregularidade na habilitação do condutor da balsa, também contribuiu para a quebra da tradição. O piloto tinha habilitação apenas para embarcações de pequeno porte.

Minutos antes da partida da balsa que transportaria a imagem de São Pedro, ocasião em que os devotos já estavam todos preparados para iniciar o rito de celebrar o dia do padroeiro dos pescadores, no meio do rio, a equipe de fiscalização da Marinha comunicou ao padre Amarildo Luciano, que este seria o primeiro ano, em que a procissão não seria realizada como nos anos anteriores, devido a irregularidades encontradas. Na ocasião, o órgão ressaltou que a igreja foi informada durante reuniões realizadas na semana passada sobre as exigências em relação à segurança dos fiéis.

Após o anúncio do cancelamento da celebração fluvial, uma pequena procissão foi realizada dentro da embarcação e depois a imagem seguiu para a igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, localizada na rua Frei José dos Inocentes, no bairro Educandos, Zona Sul, onde foi realizada uma missa para celebrar o dia de São Pedro.

“Dois obstáculos infelizmente impediram que a Marinha permitisse que a procissão seguisse seu trajeto tradicional. Um foi a falta de coletes. Segundo as normas da Capitania, para esse tipo de evento é preciso que a embarcação esteja equipada com 110% de coletes. A outra irregularidade é a habilitação do condutor da balsa. A pessoa que iria conduzir a embarcação pelo rio é habilitada, mas não na categoria correta. Ele não pode comandar uma embarcação de porte grande, principalmente com essa quantidade de pessoas”, frisou um servidor da Marinha que preferiu não se identificar.

Apoio

Lamentando o fato, o padre Amarildo Luciano, disse que as celebrações não seriam afetadas e que os obstáculos enfrentados pela igreja católica desde sua fundação são combustíveis para o seu fortalecimento. O padre ressaltou que há 2 anos a igreja não conta com o apoio dos poderes públicos para a realização do evento, que agora é patrocinado pelo setor privado. Esse seria um dos fatores que contribuiu para a deficiência na estrutura da celebração realizada desde 2015.

“Não temos condições de oferecer um colete para cada fiel que está presente hoje aqui. Essa já é uma procissão que faz parte da igreja e mesmo sem apoio nunca tivemos esse tipo de problema. Desde maio estavam acontecendo reuniões. Este ano a Marinha não participou de nenhuma. Ontem a Marinha homologou o documento liberando a procissão e hoje veio aqui e embargou. Mas isso não mudou nada. A fé não depende da autorização de uma pessoa. A fé é algo que brota do fundo do coração das pessoas e que as vezes na dificuldade se fortalece. Essas dificuldades enfrentadas pela igreja, só aumentam a força da nossa comunidade”, destacou.

As embarcações de pequeno porte que sempre seguem em romaria pelo rio Negro, acompanhando a imagem de São Pedro e que participam do concurso “Barco da Fé”, que premia a embarcação mais criativa e melhor decorada com o tema da festa, decidiram realizar por conta própria uma pequena procissão fluvial, apenas em frente ao complexo do Amarelinho, também localizado no bairro Educandos.

Já os fiéis que mesmo desapontados com o cancelamento da tradicional procissão fluvial, não desistiram de agradecer e pedir mais bençãos a um dos santos mais populares da igreja católica. Para os devotos, esse contratempo serviu para fortalecer ainda mais a fé.

“Sou pescador e devo muito a São Pedro. Quase todos os meus pedidos de proteção, prosperidade no meu trabalho e de saúde também, foram atendidos por ele. Há mais de 10 anos eu participo da procissão, como forma de agradecimento. Isso me fortalece na fé e aumenta mais a minha admiração por São Pedro. Fiquei surpreso com o cancelamento, mas isso não abala a minha devoção. A procissão na água é apenas um ritual, uma simbologia. O que vale mesmo é o que temos dentro do coração”, declarou o pescador Raimundo Silveira, 56.

Com 71 anos de idade, a dona de casa, Maria Pirangi de Souza, também participa do evento todos os anos e mesmo com a mudança na programação deste ano, não perdeu a alegria de estar mais uma vez agradecendo pelas graças alcançadas.

“Desde criança venho a procissão de São Pedro. Neste momento eu não consigo explicar o tamanho do sentimento de gratidão que tenho por ele, por tudo que São Pedro fez e faz por mim e pela minha família. Meus pedidos são feitos quando a balsa começa a sair, como este ano isso não vai acontecer, vou pedir em silêncio dentro da igreja. O poder e a força do nosso desejo continuam os mesmos, sendo feito na água ou na terra. O importante é ter fé”.

O bispo-auxiliar de Manaus, dom José Albuquerque comentou a importância de São Pedro para a igreja católica, ressaltando que o santo o foi primeiro discípulo de Jesus, aquele que recebeu do Salvador a promessa de edificar o seu reino aqui na terra.

“Pedro sempre foi considerado o primeiro dos apóstolos, então a igreja conserva esse respeito e essa admiração. Como Pedro foi pescador virou padroeiro da classe e vem intercedendo por todos os pescadores, por todos os que vivem do trabalho nos rios. É um dos santos mais populares e queridos. Pedro amou muito a Cristo e é para isso que servem os santos”, finalizou.

Por Gerson Freitas

 

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