Política

Torcedores amazonenses resistem ao fracasso e as mazelas do futebol local e seguem fiéis aos clubes da terra

O professor de inglês Elias Abensur é frequentador assíduo dos estádios locais – foto: divulgação

O professor de inglês Elias Abensur é frequentador assíduo dos estádios locais – foto: divulgação

A centésima edição do Campeonato Amazonense tinha tudo para ser a melhor dos últimos anos, não somente pela marca histórica, mas por poder contar com bons estádios e pouca concorrência no mercado, já que não há nenhum Estadual sendo disputado neste mesmo período. Porém, a tradição desorganização do futebol local fez questão de atrapalhar tudo.

Com mudanças na tabela feitas frequentemente, horários que dificultam a presença do público e o baixo nível técnico apresentado dentro de campo, os dirigentes bem que tentam afastar o torcedor dos estádios, mas não conseguem. É bem verdade que o público nas arquibancadas não é dos melhores, mas graças aos poucos apaixonados pelos times locais, o futebol amazonense segue vivo.

Levado pelos pais quando criança aos estádios, o técnico de informática Wilson Machado, 57, é um dos guerreiros das arquibancadas barés. Nacionalino com orgulho, ele é um daqueles fanáticos que seguem seu time do coração para onde ele for.

“Cada vez mais me sinto mais nacionalino, cada vez mais incentivo as pessoas, os amazonenses principalmente, a olharem para o futebol local. Mostro as partidas dos times de fora com um nível técnico muito fraco. Quando você vê um jogo daqui é outra coisa. Assim como também a emoção de assistir um jogo pela televisão não é a mesma do que assistir a um jogo no estádio. Não adianta, torcer para time de fora não dá o prazer de torcer para os times amazonenses”, crava Machado.

Fundador da torcida Narraça no início da década de 90 e membro do corpo diretivo do Leão da Vila Municipal, o técnico de informática ainda espera por dias melhores do seu time do coração. Otimista, ele sonha em ver o Nacional duelar com grandes equipes do futebol brasileiro.

“O que mantém essa paixão é o fato de acreditar sempre que todo ano a gente vai melhorar, que um dia o Nacional vai voltar a figurar na Série A. É uma paixão muito grande, eu durmo pensando no Nacional, acordo pensando no Nacional, canto o hino do Nacional todos os dias. O Nacional está no fundo do poço, mas eu tenho certeza que com nosso trabalho, com nossa união, a gente vai tirar o Nacional dessa situação”, crê o torcedor.

Nova geração

Engana-se quem pensa que só os mais antigos torcem somente para clubes amazonenses. Com apenas 21 anos, a recepcionista Bruna Rebeca Pires é daquelas torcedoras que não perde um jogo do São Raimundo. Influenciada por um primo, que também torce para o Tufão, a jovem passou a acompanhar o clube desde os anos 2000, época em que o clube conquistou os principais títulos de sua história.

“Com apenas 5 anos, via o Rei do Norte brilhar, ouvia os jogos pela rádio, via os pôsteres na parede do quarto do meu primo, e desde então fui acompanhado o São Raimundo e criando amor pelo futebol local. Ganhava camisas, ele me falava do clube, falava da história, dos jogadores e do quanto era legal torcer”, recorda Bruna.

São-paulina por influência do pai quando criança e admiradora do esporte bretão desde a infância, ela conta que deixou de lado o carinho que tinha pelo time paulista quando assistiu ao primeiro jogo do São Raimundo no estádio. A partir daquele momento, a recepcionista passou a acompanhar mais de perto os passos do time do coração.

“Eu costumo dizer que o São Raimundo te escolhe, a emoção de torcer para o Tufão da Colina é única. Vi momentos de glória, muito pequena ainda, mas momentos inesquecíveis. Hoje em dia, não vivemos o ápice do futebol, mas o que vale é apoiar, é incentivar e nunca, jamais, desistir do clube. Quando você aprende a amar, a viver essa paixão, pode parecer loucura, mas é isso que nós, torcedores do São Raimundo, chamamos de amor”, resume a jovem torcedora.

Inexplicável

Como diz aquele velho clichê: amor não se explica. Com a mesma idade que Bruna, o professor de educação física Yan Luis possui uma relação íntima com o Rio Negro. Criado no clube – frequentava a sede desde os 4 anos de idade para fazer aulas de natação –, o jovem não tem tido muitos motivos para comemorar com a camisa do Galo da praça da Saudade, mas, quem se importa?!

“Amor não tem muita explicação, apenas se sente. Meu sonho é ver o Rio Negro disputando grandes competições e sendo campeão, mas sei que se isso não acontecer, estarei lá torcendo do mesmo jeito. Depois de Deus e minha família, o Rio Negro é a coisa mais importante para mim”, declara Luis.

Sem comemorar um time relevante há anos, o educador físico afirma que sua maior alegria é ver os torcedores do clube nos estádios, mesmo com a má fase que insiste em não largar o Galo. Inclusive, ver os rio-negrinos acompanhando o time mesmo na pior fase da história do clube é o que alenta Yan e o faz acreditar em dias melhores.

“Infelizmente, o amazonense não manteve acesa a chama de torcida das décadas de 60, 70 e 80. Apenas resultados expressivos podem trazer isso de volta, como títulos regionais, boas campanhas em Copa do Brasil e, principalmente, acesso de divisão no Campeonato Brasileiro”, avalia o jovem.

Figura carimbada

Quem frequenta ou já frequentou os estádios amazonenses deve conhecer Elias Abensur. Ativo e enérgico nas arquibancadas, o professor de inglês começou a torcer pelo Fast Clube por influência da mãe, que o levava para assistir ao Rolo Compressor quando ainda era criança.

“É a questão do orgulho de ser local. No Rio de Janeiro, ninguém vai torcer para o Fast, Nacional, Rio Negro ou São Raimundo. A mesma coisa no Pará. Eles não vão torcer para os nossos times. Então, por que temos que torcer para times de outros Estados? Por que essa submissão cultural? Manaus tem que deixar o quintal do Rio de Janeiro. Agora de São Paulo também, né?”, critica Abensur.

O professor de inglês é daqueles fãs apaixonados pelo time do coração. Ousado, costuma provocar os torcedores rivais não só dentro dos estádios, como também nas redes sociais, onde é muito presente. É o típico “torcedor chato”, mas que procura sempre levar e fazer todas as gozações na esportiva, como deve ser tratado o esporte.

“O meu objetivo não é agredir ninguém moralmente nem financeiramente, o meu objetivo é simplesmente promover os jogos e acirrar a rivalidade. As minhas provocações são somente para aumentar o clima de rivalidade, o pessoal vai para o estádio querer falar pessoalmente, é uma maneira de atrair o público. Alguns não entendem dessa forma, acabam levando para o lado pessoal”, finaliza.

Por André Tobias

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