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Tecnologia leva ensino a comunidades isoladas do Amazonas

“Buenas noches”, cumprimenta Felipe, ao chegar à sala de aula em Barcelos, cidade localizada no interior do Amazonas. Na sala, estão cinco estudantes e um professor. A aula, no entanto, não é dada no local, é transmitida de Manaus, a uma distância de quase 500 quilômetros de barco. Aluno do ensino médio, Felipe é um dos 50 mil estudantes do Centro de Mídias de Educação do Amazonas, iniciativa do governo do estado para superar os desafios geográficos e de infraestrutura.

O projeto leva internet, TV, câmeras, microfones e outros equipamentos necessários para interatividade a locais isolados do estado, chegando a comunidades ribeirinhas e indígenas, onde há poucos alunos e não há professores especializados ou infraestrutura adequada para aulas regulares. São atendidos estudantes do 6º ano do ensino fundamental ao 3º do ensino médio regular e também de Educação de Jovens e Adultos (EJA), sempre à noite, por causa da disponibilidade dos espaços, cujo uso muitas vezes é dividido com os municípios.

Esses alunos, que correspondem a 10% da rede de ensino estadual, recebem aulas de professores especializados, fazem exercícios e tiram as dúvidas por meio de vídeos. Tudo em tempo real. Como em qualquer outra unidade de ensino, recebem material escolar, uniforme, livros didáticos e merenda.

Na quinta-feira (29), a aula de Felipe foi interrompida pela visita de uma comitiva de secretários estaduais, representantes dos estados, especialistas, além do secretário de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Manuel Palacios. Eles participavam do 2º Seminário do Ensino Médio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed).

“O projeto trouxe motivação, tem muita gente aqui que há muito tempo não estudava. Temos professores que estudaram [pelo Centro de Mídia] e hoje estão dando aula aqui na comunidade”, disse o professor de Parintins Ivan Teixeira pelo sistema de interatividade

Teixeira é um dos professores que acompanham os alunos no local onde estão – ele cuida dos equipamentos para a transmissão e é responsável pela aplicação de provas e exercícios e ajuda os alunos em qualquer dificuldade.

Na visita, os gestores enfrentaram as câmeras e conversaram com os alunos. Em Nhamundá, localizada a 375 quilômetros de Manaus, os indígenas de Caçauá aproveitaram para fazer um pedido. Um estudante, que não se identificou, pediu que o estado leve luz à comunidade.

“Facilitaria para chegar à escola”, afirmou. O secretário de Educação e da Qualidade de Ensino do Estado do Amazonas, Rossieli da Silva, que liderava a visita do grupo, prontamente respondeu que já tem viagem ao local agendada.

O Centro de Mídias recebeu prêmios nacionais e internacionais. Desde a criação, em 2007, os serviços ofertados se ampliaram e, atualmente, as aulas chegam também à capital e podem ser acessadas por smartphones. Os alunos podem acessar aulas de reforço e até mesmo testar os conhecimentos. Na véspera do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), foi disponibilizado um simulado por Whatsapp.

A estrutura consiste em sete estúdios que transmitem aulas para os 62 municípios do Amazonas, via satélite. “Não é uma educação a distância, em que apenas os professores falam. É um ensino presencial mediado por tecnologia”, explicou Rossieli da Silva. Os professores são avaliados anualmente. “Somos rigorosos, qualquer erro, chega a 5 ou 7 mil estudantes”, desracou.

Além do professor que está lecionando, outro professor, também especialista, responde a dúvidas dos alunos por meio de um chat (bate-papo) escrito. Uma equipe técnica cuida da transmissão e também de entrar em contato e resolver eventuais problemas técnicos que as escolas estejam enfrentando.

“Ainda que não seja o ideal, que tenhamos problemas – e temos problemas, sabemos disso –, é a única forma de acesso que conseguimos garantir a esses estudantes. Há salas em locais isolados que têm cinco alunos, e eu não consigo colocar 12 professores especialistas lá para o ensino médio. Nem que eu quisesse, não tem profissional”, ressaltou Silva.

De acordo com Silva, o projeto vem ganhando adeptos, e há iniciativas semelhantes no Maranhão, no Piauí e na Bahia. A partir do ano que vem, as transmissões de conteúdo passarão a ser feitas de Manauspara Rondônia, em uma parceria inédita.

Por Agência Brasil

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