Dia a dia

Tarumã: crônica de uma morte anunciada

cachoeira_ricardo-oliveira

Pablo brinca com a espuma gerada pela poluição das águas, imaginando que está brincando com flocos de neve – foto: Ricardo Oliveira

Nos primeiros passos dentro da trilha íngreme no meio da floresta já é possível ouvir que o ronco da queda d’água ainda é o mesmo. Mas falta o barulho das risadas e da algazarra das crianças e das famílias que, nos fins de semana, frequentavam o balneário no século passado. O cheiro de terra molhada e da mata também já não existe mais. Em seu lugar o odor forte de água podre se espalha pelo ar. Estamos caminhando em direção à Cachoeira Alta do Tarumã, na Zona Oeste, que já foi um dos mais exóticos e belos cartões-postais de Manaus e hoje está abandonada, mergulhada no lixo e com aparência de terra arrasada.

A cada avanço dentro da floresta, vamos encontrando as marcas do homem e de sua indiferença em relação à preservação ambiental: garrafas PET, restos de isopor, sacos plásticos, restos de bicicleta, latas de cerveja, garrafas de cachaça, tênis velhos. O descarte desses objetos forma uma montanha de lixo bem próximo à queda d’água, que também já não é tão forte como no passado. Hoje, a cachoeira que já foi possante e caudalosa no passado, mais parece uma bica com alguns ‘fiapos’ de água escorrendo.

O igarapé onde deságua a Cachoeira Alta está assoreado e o entorno secou, matando pés de buritis e outros tipos de vegetação que só nasce no charco. Algumas dessas árvores exibem só o tronco seco, dando ao local um aspecto de pântano de filmes de terror. Para quem, na infância, mergulhou nessas águas, dói ver o Tarumã nesse estado.

Heráclito, um dos filósofos pré-socráticos mais influentes, afirmava que ninguém toma banho no mesmo rio duas vezes. O que o pensador queria dizer com isso é que tudo flui e segue seu ciclo natural. Mas isso na filosofia, na questão ambiental, nós os amazonenses, bem que poderíamos ter mudado o curso das decisões políticas e administrativas de nossa cidade, impedindo a degradação do Parque Tarumã, que hoje não passa de uma doce lembrança de infância.

Encravado na Zona Oeste de Manaus, a Cachoeira Alta do Tarumã e a Cachoeira Baixa, também chamada de Tarumãzinho – que formam o Parque Ecológico Tarumã –, já foram o paraíso dos manauenses que, nos dias quentes de verão seguiam de caminhão, jeep, de ônibus, camionetes ou motocicletas para realizar piqueniques no balneário e se refrescar em suas águas da cor de guaraná.

Na Manaus dos anos 1950, 60, 70 e 80 o local era longe, muito longe. Em nossa visão de cidade com pouco mais de 700 mil habitantes, representava apenas uma estreita faixa de asfalto riscando o verde da floresta. Havia curvas ‘perigosas’ e era preciso dirigir com muito cuidado e atenção.

De acordo com o ex-prefeito Serafim Corrêa (PSB), a degradação ambiental do Tarumã teve início na obra de construção do aeroporto internacional Eduardo Gomes, por volta de 1974, ainda no regime militar, quando a empreiteira responsável pela obra passou a retirar toda a pedra necessária para a construção da obra, dinamitando as margens do igarapé.

“Foi um crime. As margens do igarapé que deságua na cachoeira foram dinamitadas para permitir a extração das pedras”, lembra Serafim.

De acordo com o ex-prefeito – hoje deputado estadual e candidato a prefeito –, a exploração continuou até que no início dos anos 90, a agressão assoreou o igarapé e desviou seu curso para outros canais, enfraquecendo o volume de água da Cachoeira Alta.

Quando o então prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) assumiu a prefeitura em seu primeiro mandato (1989), sentiu que era preciso fazer algo para evitar um desastre ainda maior. Assessorado pelo secretário de Meio Ambiente, o professor da Ufam Frederico Arruda, interditou a chamada ‘Pedreira do Cordeiro’ que era quem explorava o local.

“Foi muito importante essa interdição porque parou a destruição da área, um dos maiores crimes ambientais cometidos contra nossa cidade”, lembra Serafim Corrêa, observando que no local da vegetação surgiram lagoas que com suas águas paradas geravam doenças.

“Com o avanço da cidade, surgiram bairros nas proximidades, inclusive um conjunto habitacional que comprometeu mais ainda o volume de água porque prejudicou as nascentes. Por outro lado, as lagoas são criadouros de mosquitos, que prejudicam a saúde de quem mora naquela área”, adverte o ex-prefeito.

Banho de espuma na cachoeira poluída

“Ei, moleque! Cuidado com essa espuma. Ela pode ser tóxica!”, alerta o fotógrafo Ricardo Oliveira para um menino que toma banho em meio às águas poluídas da Cachoeira Baixa, o Tarumãzinho, um pouco mais à frente da Cachoeira Alta, no lado esquerdo da estrada do Tarumã. O garoto não se apercebe do risco que corre. “Ele deve estar acostumado”, deduz o fotógrafo.

No Tarumãzinho, que era o lugar mais aprazível e de fácil acesso para os banhistas, a situação também é de cortar o coração. Completamente abandonado e com um odor insuportável, a cachoeira só guarda mesmo do passado um resto de escada de concreto que dava acesso às corredeiras e que hoje tem apenas quatro degraus – o restante desabou –, e um pedaço da proteção de ferro que também está atirado ao chão.

As margens do Tarumãzinho mostram o mesmo quadro da Cachoeira Alta, com a areia coberta de lixo e objetos que não dissolverão em menos de 200 anos, como embalagens PET, sacolas de plástico e embalagens de quentinha. Quando o vento sopra um pouco mais forte, a espuma se desprende das pedras e o odor é insuportável.

“Ninguém vem mais aqui. Isso está completamente abandonado e o único sinal de vida é aquela borracharia ali”, aponta o motorista José Luiz Barboza, que ainda lembra a movimentação do comércio que resistiu até meados da década de 1990, mas que teve sua efervescência no período de 1970 a 1980.

“Aqui era possível encontrar um bom restaurante de peixes, bares naquela outra margem, com cadeiras que iam até perto das pedras, além de diversos quiosques com lanches e batidas. Era uma festa um dia de piquenique no Tarumã”, conta Barboza.

O garoto, que continua brincando com a bola de espuma que se forma sobre as corredeiras e engata nas pedras, se chama Pablo, tem 9 anos e estuda na escola municipal Serafina Fink, ali perto. Quando a sirene de saída anuncia o final da aula, às 11h45, ele corre para casa para almoçar e, logo no início da tarde, começa a explorar o “seu mundo particular”, o Tarumãzinho, onde jura já ter visto tartaruga pegando sol nas pedras, jacaré e até peixe grande.

“Você não tem medo que essa espuma faça mal para a sua pele?– pergunta o repórter.

“Eu não. Nunca tive nada”.

“ E o mau cheiro, como você aguenta?”

“Já estou até acostumado”.

“ Você acha que ainda dá peixe aqui ou morreram todos?”

“Morreu nada. Já vi até tartaruga”, diz o garoto.

A espuma com que Pablo brinca, atirando para o ar como se fossem flocos de neve, é formada pelas fontes de poluição das águas e decorrem, principalmente, da atividade humana, esgotos domésticos e industriais, que são atirados nas águas de forma criminosa.

Os detergentes e sabões impedem a decantação e a deposição de sedimentos e, como reduzem a tensão superficial, permitem a formação de espuma branca na superfície dos rios, diminuindo a oxigenação da água, o que afeta a vida aquática e a vida humana.

Mas Pablo não sabe disso. E nem sabe também que o Tarumãzinho, onde ele brinca como se fosse o quintal de sua casa, um dia já foi um balneário aprazível frequentado por multidões nos dias de sol, além de ter virado cartão-postal e capa de revista.

Cachoeira Alta, a morada dos orixás

O Tarumã também abriga entre suas águas e florestas rituais de cultos afros. Por conta disso, o então vereador Raimundo Barreto, por volta de 1998, tentou aprovar o projeto Parque dos Orixás, que implantaria no entorno da Cachoeira Alta restaurante com comidas típicas da culinária afro, estátuas de orixás a cada trecho da trilha na floresta, com explicações sobre o significado no sincretismo e o perfil de cada um deles, além de biblioteca com obras sobre os cultos afro e locais, para praticar oferendas aos orixás.

O projeto de Barreto foi detonado pela bancada evangélica, sob a acusação de ser um ‘culto ao capeta’. Não adiantou ele tentar explicar que o Tarumã já era um local frequentado por pais-de-santo e babalorixás. E que a cachoeira representa para esses cultos, a morada de “espíritos amigos” e dos orixás que cuidam do equilíbrio energético, físico e emocional de corpos físicos.

Na quinta-feira, a equipe do EM TEMPO se deparou com Mãe Márcia Regina e uma de suas filhas de terreiro, a cantora da noite Bárbara Bianca, que se dirigiam à Cachoeira Alta para a realização de um trabalho para limpar o corpo de uma moça que veio de Coari buscar ajuda espiritual.

“A cachoeira é importante porque a força das águas carrega todo o mal. As águas limpam as impurezas e retiram a energia negativa”, explica a mãe-de-santo, que informa que trouxe oferendas para Xangô e Oxum. “Nós só trabalhamos para o bem”, diz ela, enquanto arruma sobre a toalha branca posta sobre uma pedra no entorno da cachoeira, velas, milho branco, garrafas de cerveja, coco aberto e inhame.

Em seguida, brada algumas palavras e atira doses de cerveja para o ar.

“Aiê, iê,e aieiêe mamãe Oxum! Pelas horas que são, pelo dia que é hoje salve a sua luz”, pronuncia de olhos fechados, enquanto passa acará branco sobre o corpo da moça, que começa a se emocionar.

O ‘trabalho’ prossegue embalado por um ponto de macumba que diz assim: “Eu não seria nada se não fosse Ogum pra abrir minha estrada…”.

Por Mário Adolfo

1 Comment

1 Comment

  1. Adailson Rodrigues

    25 de setembro de 2016 at 18:00

    O homem é um animal racional, racional às vezes , animal quase sempre.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Subir