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Seca castiga comunidade em Presidente Figueiredo

Seca revela um cenário desolador, no lago de Balbina, em Presidente Figueiredo  - Foto: Ricardo Oliveira

Seca revela um cenário desolador, no lago de Balbina, em Presidente Figueiredo – Foto: Ricardo Oliveira

Quando pensamos em Presidente Figueiredo, município localizado a 107 quilômetros ao norte de Manaus, rapidamente lembramos de suas inúmeras cachoeiras e a vastidão de floresta preservada. Terra do cupuaçu, a cidade é uma das opções preferidas dos manauenses e demais turistas, que se deslocam até a cidade em busca de lazer e descanso em seus balneários. Banhado pelo rio Uatumã, o município ilustra bem o que o escritor Leandro Tocantins escreveu no livro “O rio comanda a vida”, ao relatar que o caboclo da região depende das águas do Amazonas para sobreviver. Todavia, nem o mais pessimista dos moradores desta terra poderia imaginar que vários quilômetros de rio virariam um dia cenário de devastação. Devido à grande seca que atinge a terra das cachoeiras, muitas áreas secaram, inclusive uma parte da bacia de Balbina. Sofrendo com a baixa do nível do rio Amazonas, deixando algumas comunidades isoladas e os moradores encontrando dificuldades para conseguir comprar os mantimentos básicos para se manter.

Localizada no quilômetro 165 da BR-174 (Manaus – Boa Vista), a comunidade Boa União vive um momento crítico. Na localidade, mais de 5 mil famílias que vivem no ramal Rumo Certo sofrem com a seca que isolou o lugar. Um exemplo do sofrimento enfrentado pelos moradores é o canoeiro Reginaldo de Lima, 39. Além de ficar sem seu principal meio de sustento, Reginaldo ainda perdeu toda a plantação que tinha em seu sítio. Ele explica que normalmente leva, aproximadamente, 45 minutos para ir de sua casa, localizada em uma das ilhas próximas, até o porto da comunidade. Porém, com a seca do rio, agora ele gasta mais de seis horas para fazer o trajeto.

“Estamos passando por isso há oito meses. São duas secas seguidas na região. Não está chovendo e o pessoal ainda está abrindo as comportas da hidrelétrica de Balbina. Aí complica mais para a gente. A dificuldade está imensa. Quem trabalha com agricultura está ferrado (Sic). Está a zero. Tinha produção de banana e acabou. Não tem como cuidar da terra. Não tenho como transportar. Acabou tudo”, desabafa o canoeiro, que vive com a mulher e três filhos no lugar.

Na última quarta-feira, a equipe do EM TEMPO acompanhou a jornada do canoeiro, que, acompanhado do filho Pedro Henrique, 9, e do sobrinho Daniel, 11, enfrentou o filete de água que se transformou o rio Uatumã, em um trecho da lagoa de Balbina, para comprar gêneros alimentícios. Durante o percurso foi possível observar um “cemitério” de embarcações revelado pela seca, e os inúmeros troncos de árvores, outrora submersos, e que agora ilustram um cenário de desesperança.

Reginaldo informa que as crianças deixaram de frequentar as aulas por causa da seca. Segundo o morador, sem água não é possível fazer muitas coisas na região. “Temos que comprar de três em três meses os suprimentos para sobreviver. Damos nosso jeito para conseguir dinheiro, porque perdemos nosso ganha-pão. Tem parte da viagem que desço para puxar a canoa. As crianças do lago não vão estudar. Se não tem água, não tem como trazer. Algumas famílias conseguiram sair das casas e mudar para a sede de Presidente Figueiredo. Porém, quem não tem condições, ficou e está sofrendo. Sou um desses”, lamenta o canoeiro, que garante não ter recebido ajuda da prefeitura até o momento.

“Ainda não temos suporte da prefeitura. Eles fizeram promessas, mas está faltando água até para tomar banho. Sorte que temos poço. Porém, o rio está secando e daqui a pouco não temos mais. A criação de ovelha está morrendo. Não tem condição. Está tudo abandonado. Isso não é garra, não é força, não é coragem, é necessidade”, avalia Reginaldo.

Abandono

Outras comunidades como Nova Floresta, Balbina, Jardim Floresta e Nova Jerusalém também estão enfrentando dificuldades. A agricultora Dalva de Jesus, 45, também moradora da Boa União, admite que o desespero toma conta das famílias da redondeza. Dona do açougue Boi na Brasa, Dalva foi obrigada a fechar o estabelecimento por não ter mais dinheiro circulando no local, em virtude da seca do rio.

“Tudo foi afetado. Diminuiu o número de pessoas na comunidade. Só melhora se encher novamente o rio. Foram embora mais de mil famílias. Tive que fechar o açougue, porque não tem quem comprar. Só o mercadinho que ainda sobrevive. Minhas galinhas já morreram e vou ter que vender meu boi, porque não tem água para beber. Ainda não veio caminhão-pipa para cá. Já estamos sofrendo há muito tempo sem água. Perdi minhas plantações de limão, cupuaçu e tangerina”, declara.

El Niño

O ex-secretário de meio ambiente de Presidente Figueiredo e geólogo, Frederico Cruz, explica que a diminuição no fluxo dos igarapés que banham Presidente Figueiredo nesta época do ano é normal, porém, na atual estação, alguns fatores colaboraram para a seca. Entre os principais está o fenômeno climático El Niño, que provocou a falta de chuvas na Amazônia.

“A seca é uma coisa normal na nossa região. As nascentes de Presidente Figueiredo estão secas, porque não choveu nesses últimos meses. Não havendo chuva, consequentemente a renovação da água influenciou na grande seca. Nem as árvores conseguiram reter água suficiente no período de chuva. O nível freático baixou, não houve reposição da própria floresta e não choveu. Não havendo isso, o nível baixou”, explica Cruz.

Por Thiago Fernando

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