Cultura

Rui de Carvalho: o ‘embaixador da cultura amazônica’

Natural de Porto Velho, Rui de Carvalho mora há 40 anos no Rio de Janeiro - foto: divulgação

Natural de Porto Velho, Rui de Carvalho mora há 40 anos no Rio de Janeiro – foto: divulgação

Muito compositor já se arvorou a cantar a Amazônia. Muito artista plástico já ousou pintar a Amazônia. Agora, fazer as duas coisas ao mesmo tempo é uma tarefa quase impossível. Eu e você, leitor, temos o direito de pensar assim, mas só até o dia em que conhecer Rui de Carvalho, um ‘índio’ da Amazônia radicado há 40 anos no Rio de Janeiro.

Seu último projeto traduz o que estão afirmando. Rui pintou 12 telas das lendas amazônicas e compôs uma canção para cada uma delas. O resultado desse trabalho vem sendo apresentado em várias escolas do Rio de Janeiro, entre elas as escolas do Serviço Social do Comércio (Sesc), no bairro da Tijuca.

As crianças arregalam os olhos quando Rui entra no palco levando material que amigos lhe mandam da Amazônia – cocares, zarabatanas, arcos e flechas, pulseiras, colares e instrumentos de percussão. A ‘curuminzada’ arregala ainda mais os olhos quando a narradora das lendas, a poetisa Sílvia Ferraz, entra em cena e começa a contar: ‘Dizem, foi Mapinguari, um mistério horripilante, lá no alto do Purus, quem tem um olho é o gigante’.

Lenda contada, Rui retorna à cena para explicar os seres mitológicos retratados em óleo sobre telas, pintadas com sua espátula, em doses vibrantes de tons que remetem à Amazônia. A partir daí, o artista plástico sai de cena e incorpora o compositor que, ao violão, vai desfilando as canções compostas exclusivamente para cada uma dessas histórias: Yara mãe d´água, o Boto, Curupira, Sapo Aru, Cobra Grande, Mapinguari, Matinta-Pereira.

“Com esse projeto das lendas amazônicas, apresento as histórias contadas por minha mãe, que fizeram parte da minha infância e adolescência e que continuam vivas até hoje, mesmo morando no Rio há mais de 40 anos. Vou continuar levando a Amazônia comigo aonde eu for. Quero ser o embaixador da Amazônia no Rio”, explica Rui de Carvalho, que nasceu em Porto Velho, veio para Manaus aos 12 anos e se transferiu para o Rio aos 18.

Muitas luas se passaram, mas Rui continua cantando e pintando a Amazônia. Foi chefe do departamento de design do ‘Jornal do Brasil’, atuando numa redação histórica onde cresceu convivendo com Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, João Saldanha, José Carlos de Oliveira, Ziraldo, Chico Caruso, Castelo Branco, Zózimo Barroso do Amaral, para citar apenas alguns nomes que fizeram do JB o maior jornal do país.

Em 1982, gravou o LP Enfieira, que mostrou ao Rio de Janeiro o sangue verde da Floresta Amazônica que Rui trazia nas veias. “A simplicidade com que compõe, canta e vice-versa, nesse disco, mostra que Rui de Carvalho é um ‘Chansonnier’. Rui é, na verdade, um poeta urbano dos bons”, escreveu o cartunista Chico Caruso, de ‘O Globo’. Naquele ano, ‘Enfieira’ ficou entre os dez melhores discos do ano, de acordo com a Associação dos Produtores de Discos Independentes, bandeira erguida por compositores como Chico Mário (irmão do Henfil), Antônio Adolfo, Danilo Caymmi e a dupla Luli e Lucinda.

“Inventar falsos astros e estrelas da canção e deixar num ostracismo absurdo cantores e compositores rigorosamente categóricos, como Rui de Carvalho, é desperdiçar dinheiro. Enfieira é um trabalho genial de Rui de Carvalho”, escreveu Tuninho, no ‘Jornal da Tarde de São Paulo’.

Nos dias 27 e 28 de dezembro de 2002, numa iniciativa do jornalista Alfredo Herkenhoff e do músico Renato Piau, o CD “O Tom do Leblon” foi lançado no Bar do Tom – Plataforma, com ampla cobertura de “O Globo” e “Jornal do Brasil”. Rui de Carvalho estava lá, participando do CD com a música ‘De Bar em Bar’ (homenagem a Jaguar), que ganhou completamente o público no show do Plataforma, sendo uma das mais aplaudidas.

Em 2008, o compositor volta a surpreender. Lança o CD ‘Noel Rosa por Rui de Carvalho’, que recebeu o seguinte comentário de Fernando Bicudo: ‘Rui, já ouvi ‘Palpite Infeliz’, ‘Gago Apaixonado’ e ‘Com que Roupa’, sensacionais, não apenas o violão e os arranjos, mas a tua interpretação. Voz redonda, timbrada, agradável de se ouvir, daquelas que cativa e podemos ouvir a noite inteira, sem cansar os ouvidos. Parabéns, de verdade”.

Em 2013, Rui lança seu sétimo CD, ‘Águas do Brasil’. O álbum, que vem acompanhado de um livro e ainda pode ser adquirido diretamente com o artista por meio do e-mail ruidecarvalho2@gmail.com.

Conheço o Rui de “conversas de botequim” e de parcerias memoráveis na música e na vida. Dono de um talento do tamanho das águas do Madeira – onde bebeu da fonte –, Rui é capaz de reencarnar um boêmio carioca ao mesmo tempo em que se transforma em Curupira e galopa pela Floresta Amazônica, defendendo árvores, rios e bichos. Ouvi o CD do Noel e sei do potencial desse artista que coloca a alma, os olhos de peixe e o mormaço da floresta em tudo que faz. Até hoje não entendi por que seu primeiro disco ‘Enfieira’, que repito como um dos mais sofisticados discos que ouvi na vida, não tenha estourado no ‘sul maravilha’. Prova de que, hoje, para fazer sucesso precisa-se de muito mais que talento. O que Rui tem de sobra.

Por Mário Adolfo

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