Editorial

Ri melhor, quem ri por último

Foram descobertos pergaminhos, lá onde sempre são descobertos pergaminhos, onde se relata que o mundo foi criado de uma gargalhada de Deus. É a primeira e talvez única referência a uma risada ou gargalhada de Deus, embora sejam inúmeras as referências à ironia de Deus, no Velho Testamento. Deus não ri? Mas aqueles pergaminhos que mal são referidos (por que se insiste tanto em que Deus não ri?), também podem ser uma datação da ironia divina.

Com uma visão tão longa que abarca o futuro, Deus deve mesmo ter rido às gargalhadas, a ecoar pelo universo infinito, ao tomar tento da espécie que acabara de criar entre as estrelas e os astros de tantas galáxias, à sua imagem e semelhança: uma porção de ironia. É em nome de um Deus mais sisudo, sempre de mau humor, que se cometem crimes como aquela “humanimaldade”, perpetrada contra a revista francesa “Charlie Hebdo”, com 12 mortos e uma indignação planetária.

A humanidade tem convivido (e convivido mal, muito mal) com esse evangelho do terror, que atenta, prioritariamente, contra o riso. O riso já foi considerado uma arma do diabo (ou satanás ou sem-nome ou “o cujo” ou qualquer medo interior), mas o rock’n’roll também e foi recuperado pelos intransigentes que podem tudo, menos perder audiência. O evangelho do terror não passará. Foi fantástico o repúdio dos franceses e dos seres humanos em geral contra essa barbaridade. O mundo inteiro adotou um mantra: “Je suis Charlie”.

A solidariedade de outros jornais e revistas também foi da maior dignidade: não existe concorrência, quando o inimigo é comum; a sobrevivência da comunicação (a melhor tecnologia criada pelo ser humano) está ameaçada em sua liberdade. Mas também está escrito: ri melhor, quem ri por último.

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