Editorial

Reintegração de posse

O deputado Sidney Leite (Pros) “brechou” o armazém de secos e molhados em que está mumificado o corpo de leis brasileiras e descobriu uma luz atrás de estante sobrecarregada de poeira e má-fé pública. Ali está – como quer a indiscrição do deputado – o devastado município de Coari, ainda mais isolado, como se não fizesse parte do Estado do Amazonas (senão em temporadas eleitorais).

Sidney tem certeza de que nem precisa incomodar os atarefados parlamentares estaduais para concretizar a intervenção estadual naquele município estuprado que a Justiça negou mais de uma vez, apesar de o Ministério Público ter insistido na óbvia necessidade.

A decisão não está, em primeira instância, sequer na mão do governador José Melo, que mal acaba de assumir a sua primeira governança integral, mas na consciência cívica e disposição física do presidente da Assembleia Legislativa, Josué Neto (PSD), também em segundo mandato. Simples, como entende o deputado. Os dois são da base aliada do governador e, em tese, não haveria choque de interesses em concretizar a intervenção. Assim, o Amazonas pode requerer reintegração de posse e devolver a estrela de Coari à bandeira do Estado.

A não ser que o inferno de Coari tenha suas raízes mais profundas fincadas no interesse das autoridades estabelecidas no conforto refrigerado da capital. Aí, a “brecha” estará fechada para Sidney Leite e qualquer outro cidadão de boa vontade e vergonha na cara disposto a pôr ordem nessa orgia. O que está acontecendo naquele município é de uma costumeira perversidade: primeiro, permitem-se todas as bandalheiras a céu aberto, depois que a população se descobre indignada e vai às ruas é considerada baderneira e chega a hora de acionar a polícia, que parece ser a guardiã desse manicômio amazonense e não da segurança pública.

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