Cultura

Projeto leva arte do teatro para crianças da periferia de Manaus

Um professor de teatro abriu as portas da própria casa para levar o teatro à crianças de sua comunidade – Fotos: Marcos Paulo

Para facilitar o acesso a espetáculos e mostrar o trabalho que é feito no Teatro Amazonas e outros espaços culturais de Manaus, um grupo composto por artistas amazonenses se reuniu para levar arte à periferia da cidade. O ator e professor de artes, Iran Lamego, abriu as portas da própria casa e está construindo um espaço onde crianças, jovens e adultos do bairro Santa Etelvina, na Zona Norte de Manaus, podem trocar experiências e aprender mais sobre a arte da encenação.O projeto de levar o teatro para a periferia já existe há mais de 10 anos, porém, segundo o próprio coordenador, havia a necessidade de encontrar um lugar onde os atores pudessem ensaiar, dividir as experiencias do teatro com os comunitários e realizar os encontros do grupo.

“A ideia de fazer da minha casa um espaço cultural surgiu a partir da dificuldade de encontrarmos um lugar para nos reunirmos, de darmos aula de teatro e até mesmo de apresentarmos os nossos trabalhos. A gente contava com a boa vontade de comunitários e gestores de escolas, por exemplo, para fazermos isso. Com o meu próprio dinheiro resolvi construir a minha casa atrás e destinei a parte da frente, onde eu morava, para fazermos o nosso espaço”, disse Iran, que garantiu não receber nenhum apoio financeiro.

Na história de “A Grande Estreia”, dois palhaços se encontram e dividem desventuras

O lugar simples e com a obra ainda inacabada é o espaço perfeito onde as crianças e os jovens, de áreas consideradas de riscos, aprendem como fazer arte por meio de oficinas. “É uma forma de dar oportunidade aos jovens que vivem em áreas periféricas da cidade e que muitas vezes, por não ter oportunidade na vida, se envolvem com o mundo do crime. Eu poderia ser mais um, mas escolhi fazer arte e compartilhar conhecimento adquirido no grupo”, relatou o ator Emerson Ribeiro, de 27 anos, que entrou ainda adolescente no projeto e hoje é um dos colaboradores.

Os participantes do grupo fazem exercícios corporais, vocais, interação grupal, improvisação de cenas, análise e interpretação de textos teatrais. O conteúdo produzido vira espetáculos, que podem ser vistos pelos moradores do bairro.

Com direção de Lamego, o grupo Taua-Caá estreou o espetáculo “A Grande Estreia” e deve fazer mais três apresentações nos próximos sábados deste mês. O espaço cultural fica localizado na rua Santa Eliana, número 19, Santa Etelvina, próximo ao mercadinho Rio Jordão e Grupo Sucesso. Depois da temporada no bairro, os artistas devem seguir em “caravana” para outros espaços culturais e bairros da periferia de Manaus.

A história, encenada pelos atores Sandro Medeiros e Bruno Santos, conta a experiência de dois palhaços que, em um modelo clássico, se encontram e dividem ações e desventuras do mundo e do palco. Apenas com o uso de gestos, expressões faciais e sonoplastia envolvente, a peça retrata a vida dos personagens de forma bem humorada por trás das coxias.

O olhar clown diferenciado pela maturidade e alegria do verdor do novo personagem traz a dualidade entre eles e mostra o aprendizado que os dois adquirem com a convivência. A experiência de um exprime superioridade, mas é complementada pela alegria e frescor da juventude do outro. É um silêncio que todos compreendem, uma homenagem ao cinema mudo.

A mãe de um dos artistas é quem produz os trajes do grupo, que não recebe ajuda do poder público

“Só posso dizer que é paixão o que o Iran fez aqui. Por que só quem tem paixão pela arte faz o que ele fez, é memorável. Poucas pessoas se abnegam do seu espaço, da sua casa, para oferecer o melhor da arte, principalmente para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de ter contato com o teatro. Fazer teatro é muito difícil, a gente tem dificuldade de encontrar um espaço até para ensaiar, e aqui nós podemos suprir essa necessidade e levar a nossa arte para todos”, disse Sandro.

Sem recurso público, os artistas contam com a colaboração dos próprios comunitários e dos familiares, que improvisam os objetos cênicos e figurinos. A mãe de Iran Lamego, Gercina Barbosa, é quem produz os trajes do grupo. Empresários, artistas e a sociedade em geral podem ajudar o projeto com a finalização da obra e compra de materiais que venham melhorar o espaço cultural comunitário. Mais informações podem ser adquiridas diretamente com o coordenador do projeto pelo telefone (92) 99195-3497.

Bruna Souza
EM TEMPO

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