Dia a dia

Projeto elaborado por abrigo social transforma padrinhos em pais afetivos

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Aproximadamente, 50 pessoas são atendidas no abrigo, que recebe aos sábados pessoas interessadas em conhecer o projeto e, talvez, se tornarem padrinhos afetivos dos internos – foto: Ione Moreno

Até que ponto os laços de sangue determinam o que é amor de pai? O aposentado Aníbal Cabrita Costa, 71, afirma com toda propriedade: nenhum. Há mais de 15 anos, ele e a mulher, Mariza Costa, coordenam o projeto “Padrinhos e Madrinhas Afetivos”, na unidade de acolhimento institucional Moacyr Alves, situada no bairro Alvorada 1, Zona Centro-Oeste. O aposentado, que é pai biológico de um casal com idades entre 41 e 43 anos, decidiu dedicar parte do seu dia dando e recebendo amor como pai de coração de diversas crianças que vivem no abrigo. Neste Dia dos Pais ele se diz privilegiado por receber amor e carinho dos filhos que nasceram do coração.

“No início, só a minha esposa frequentava o abrigo; eu sempre a levava, mas não entrava. Um dia, decidi entrar e conhecer a instituição, me apaixonei e estou até hoje como padrinho afetivo de várias crianças. Ao observar a necessidade do abrigo, passei a buscar parceiros que pudessem ajudar nesse trabalho. Eu digo que sou padrinho de todos eles, porque todos precisam de atenção e carinho”, declara.

Aníbal relembra que no início de sua trajetória no projeto se apaixonou pelo sorriso de uma criança, cujo nome era Alessandro. O menino, que tinha problemas graves de saúde e não podia se levantar da cama, faleceu aos 11 anos, e marcou a vida do aposentado. “Eu me apaixonei de cara pelo sorrido dele. Ele não podia falar, mas quando eu olhava em seus olhos, podia sentir todo o carinho que ele tinha por mim. Eu era muito apagado a ele e fiquei muito triste quando ele se foi”, desabafa.

Integração

Dividindo o mesmo sentimento que Aníbal, o empresário Eric Stone, 53, também é um padrinho afetivo de seis crianças do abrigo, sendo que o mais novo tem 11 anos e o mais velho 39. Eric também é pai biológico de três filhos, com idades de 25, 27 e 29 anos, e ainda tem um neto de 2 anos. Para ele, o privilégio é poder ganhar não só neste Dia dos Pais, mas todos os dias, o carinho sincero de crianças cuja realidade é dolorida.

“Os filhos crescem e vão viver a sua vida, daí fica o vazio dentro da gente. Quando fui conhecer o abrigo junto com um grupo de amigos, eu senti que aquele vazio naquele momento havia sido preenchido. Dizem que nós damos carinho para eles, mas são eles é que dão carinho para a gente. Há 4 anos sou padrinho de todos, porque não tem padrinho para todos eles, então acaba que a gente divide o carinho. Eu consigo dividir o carinho entre vários, mas tem seis que são muito presentes no meu coração. Se eu pudesse, levaria todos para minha casa. Eles não falam, mas transmitem com a alma todo o amor que sentem. É incrível a percepção que eles têm do mundo”, declara.

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Um dos coordenadores do projeto, Aníbal Costa dedica parte do dia às crianças do abrigo Moacyr Alves – foto: Ione Moreno

Projeto

O projeto “Padrinhos e Madrinhas Afetivos” existe há mais de 20 anos, de acordo com a assistente social Socorro Bezerra. Ela explica que o projeto surgiu da necessidade de preencher os horários ociosos das crianças e adolescentes do abrigo e, ainda, proporcionar atividades internas com programações festivas e passeios externos na cidade, em que os voluntários podem dar atenção exclusiva a essas crianças.

“O projeto é coordenado pela dona Mariza e seu Aníbal, no qual eles convidam as pessoas a conhecerem o trabalho do abrigo. As visitas são aos sábados, pela manhã, no horário das 8h às 12h, para fazer parte das atividades. Fazemos um cadastro e a partir daí as famílias que pretendem estar no projeto começam a visitar o abrigo todo sábado. No segundo sábado de cada mês é feito o aniversário das crianças do mês, no qual os padrinhos e as madrinhas organizam as festinhas. No terceiro sábado de cada mês, novamente o grupo de padrinhos e madrinhas organizam com a equipe da instituição um passeio no qual as crianças são levadas para passear em algum lugar da cidade, fazer um piquenique, banho, sítio, entre outros. O grupo de padrinhos e madrinhas participa efetivamente de todos os eventos da instituição, sempre está presente, dando auxílio emocional, financeiro, é como se fosse uma mãe ou um pai”, explica.

Segundo Socorro, atualmente, mais de 30 pessoas são padrinhos e madrinhas afetivos. Aproximadamente 50 crianças são atendidas, destas 15 são adolescentes e as demais em fase adulta. Algumas já receberam autorização da Justiça e podem ser adotadas. Os interessados em ser padrinho e madrinha afetivos devem se dirigir ao abrigo, onde passarão por uma entrevista com psicólogo e assistente social da casa. Após isso, há um período de três meses em que passarão por treinamento, adaptação e só aí é feito o cadastro efetivo.

“Há vários casos de padrinhos que adotaram crianças da instituição e deram um lar para elas. Isso para a gente é gratificante. Essas crianças estavam no abrigo há muito tempo e tinham necessidades muito graves, precisavam de cuidados bem específicos e assim mesmo a família adotou. Nossa missão aqui é fazer com que o abrigo seja a casa deles. Assim como toda casa tem um pai, tem uma mãe, esses padrinhos e nós, da instituição, somos famílias para eles. Eles são tratados como filho e o sentimento é o mesmo”, pontua.

Por Michelle Freitas

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