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Procissões tradicionais tomam as ruas do Recife e Olinda durante a Semana Santa

OlindaRecife

No dia seguinte, a imagem segue nova procissão de volta para a Igreja Madre de Deus – foto: reprodução

Manifestação comum no Brasil, a procissão tem um simbolismo próprio na Semana Santa e, no Recife e em Olinda, cidades com quase 500 anos, eventos desse tipo ainda hoje levam multidões em caminhadas pelos centros históricos.

Uma das procissões mais tradicionais de Pernambuco ocorre nesta sexta-feira (25), na sexta-feira da Paixão, quando se recorda a crucificação e morte de Jesus, único dia do ano em que não há missa em nenhuma igreja católica do mundo.

A procissão do Senhor Morto percorre a área histórica de Olinda depois de um rito litúrgico, mais simples que a missa. “É como se fosse uma procissão de enterro. Sai a imagem de Jesus morto, sendo levado para o sepultamento. Também tem um sermão em uma das igrejas por onde a procissão passa. Terminada a procissão, a imagem é retirada do andor e colocada no altar principal”, detalha o antropólogo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e frade carmelita Bartholomeu Figueirôa de Medeiros, o Frei Tito.

De acordo com o professor da UFPE, as procissões da Semana Santa tem caráter de penitência, portanto são mais lentas e algumas possuem paradas. Em algumas caminhadas, inclusive, o andor é rebaixado bruscamente em determinados momentos. “Para dar uma ideia plástica das quedas de Jesus sob a cruz, de que fala a devoção católica da via-sacra”, explica.

Outra procissão pernambucana tradicional realizada na Sexta-Feira da Paixão é a que encerra uma sequência de caminhadas iniciada na quarta-feira da Semana Santa. A primeira, chamada de Procissão do Encerrro, leva a imagem de Bom Jesus dos Passos da Igreja Madre de Deus, no Recife antigo, para a Basílica de Nossa Senhora do Carmo, no Bairro de Santo Antônio.

Enquanto isso, de acordo com o antropólogo, outra multidão sai com uma imagem de Nossa Senhora no sentido contrário e as duas imagens se cruzam no caminho simbolizando o encontro de Maria com Jesus no caminho do calvário.

De acordo com o arcebispo metropolitano de Olinda e Recife, dom Antônio Fernando Saburido, a tradição das procissões combina com a missão da Igreja Católica contemporânea, de levar a fé ao povo. “A Igreja está investindo muito na questão missionária. A Igreja em saída, como tanto fala o papa Francisco. De modo que a gente precisa ir ao encontro das pessoas onde elas estão. É um pouco a intenção de envolver a todos nesse espírito missionário, nesse clima de espiritualidade.”

De acordo com o antropólogo Frei Tito, a origem das procissões é portuguesa, de um tipo de organização de católicos que é cada vez menos comum: a irmandade. Em geral, os grupos eram formados por homens sem formação religiosa formal, os leigos. Eles contribuíam financeiramente para a construção de templos e também para caridade. “Esse catolicismo tinha um lado comunitário muito interessante. Por exemplo, a irmandade dos negros tinha um caixa que servia para alforriar os irmãos que ainda eram escravos. Havia uma fila das alforrias. Isso é muito bonito, esse sentido comunitário”, destacou.

Como as irmandades, várias procissões históricas não resistiram até os dias de hoje, apesar de existirem por séculos. Um dos exemplos citados por Frei Tito é a Procissão de Jesus Crucificado, criada pela irmandade do Rosário dos Homens Pretos, construída com dinheiro de escravos alforriados.

Nessa caminhada, a imagem de Cristo na cruz saía da igreja pertencente à organização e era acompanhada das imagens de São João Evangelista, Maria Madalena e Nossa Senhora, as três figuras bíblicas que estavam ao pé da cruz, segundo o Evangelho. A procissão simbolizava a união de um dos momentos de maior sofrimento na história bíblica à cruz que os negros escravizados carregavam, segundo Frei Tito. “Como os negros também estavam crucificados pela escravidão, se identificavam com o Senhor Jesus”.

Segundo Frei Tito, várias questões contribuíram para que algumas das procissões antigas acabassem. Uma delas foi o trânsito. “Ter que parar o tráfego, pedir autorização ao BPTran [Batalhão de Trânsito] dá muito trabalho e provoca transtorno”, lamenta. Outro elemento é histórico, segundo ele: “as irmandades praticamente não funcionam mais, porque elas representam um catolicismo que deixou de existir”.

O antropólogo também acredita que o crescimento das cidades faz com que procissões não sejam mais tão comuns. “O processo de urbanização está fazendo com que as procissões percam seu encanto, o efeito de congregar as pessoas. A procissão arregimentava as pessoas, parava o trânsito. Hoje você está na rua com a procissão e ao lado os carros estão passando. O carro de som cantando, fazendo a pregação, e a buzinaria fazendo seu curso. Os motoristas ficam irritados e colocam a buzina para cima.”

 

Tradição renovada

 

Apesar do fim de algumas manifestações criadas pelas irmandades, procissões e caminhadas contemporâneas continuam atraindo cristãos às ruas do Recife. Há 16 anos, sempre na Quarta-Feira Santa, no centro da capital pernambucana, ocorre a Via-Sacra da Fraternidade, promovida pela Associação Missionária Amanhecer.

A Via-Sacra repete os passos da Paixão de Cristo, desde a condenação até a ressurreição de Jesus. No trajeto são feitas 14 paradas. Em cada intervalo, o padre João Carlos Ribeiro, coordenador da caminhada, faz um sermão em que fala de temas diversos, inclusive os sociais, como desemprego e uso de drogas.

No cortejo de cerca de cinco horas, as ruas se enchem de cantos religiosos, puxados por um carro de som e acompanhados pelos fiéis – a maioria da terceira idade. Sombrinhas na mão para se proteger do sol intenso do Recife dividem espaço com os terços. Uma grande cruz de madeira é levada por revezamento em todo o trajeto.

Na procissão da última quarta-feira (23), Lúcia de Fátima Rodrigues, 58 anos, chegou às 7h no Pátio de São Pedro e caminhou até o final da Via-Sacra de muletas. Ela tem a cartilagem dos dois joelhos gastas e não consegue mais caminhar sem o auxílio do equipamento, e por isso ficou anos sem participar de procissões, mas este ano resolveu voltar ao costume alimentado pela fé. “Vale a pena, muito. Tem sacrifício tão grande quanto o do nosso senhor Jesus Cristo por nós? Isso é só um pouquinho da minha gratidão por ele”, justificou.

Embora em minoria, alguns jovens também participaram do cortejo, como Elisa Carvalho, 17 anos. “Por estar sempre na igreja desde pequena já me acostumei”, contou a estudante, que desde 2014 acompanha a procissão.

 

Por Agência Brasil

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