Dia a dia

Prédios abandonados no Centro de Manaus revelam descaso com a história

 

Um passeio pelo Centro de Manaus revela traços do rico passado histórico da cidade, com monumentos que traduzem a imponência do movimento cultural Belle Époque, vivenciado na capital, na Época Áurea da Borracha.  No percurso, o visitante pode se deparar com a grandiosidade do rio Negro, a beleza das praças e prédios históricos.  Impossível deixar de notar, porém, o descaso com a restauração de monumentos, deteriorados pelo tempo, com total ausência de preservação do patrimônio público.

Praça da Saudade sofre com pichações e insegurança-Foto: Ione Monteiro

O ponto de partida de um passeio que poderia trazer encantamento, traduz-se em decepção, a começar pela Praça da Saudade. Fundada em 1865, apenas em 1932 o lugar passou a contar com jardins e passeios, cuja beleza já foi descrita em verso e prosa pelos poetas amazonenses.

Com várias alterações, ao longo do tempo, o espaço sofreu por anos, com a decadência imposta pelo abandono e alterações no projeto original, que deformaram a beleza do lugar. Com a reforma de 2010, o espaço teve o traçado original devolvido, inclusive com a demolição de um prédio público, que descaracterizava o local.

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Algumas festas ainda são realizadas no espaço da praça, mas não com tanta frequência. O perigo, decorrente da permanência de menores infratores, assusta a população e a novidade da restauração não trouxe o alento esperado à Praça da Saudade. Nos últimos anos, o espaço vem sendo degradado por vândalos, além de estar entregue à insegurança. Pichações e depredações podem ser vistas por toda parte.

Recentemente, uma publicação em uma rede social, viralizou na internet, chamando atenção para uma placa existente em uma banca, que mostrava o perigo dos assaltos na Praça da Saudade.

Placa na Praça da Saudade alerta para a insegurança no local -Foto: Divulgação

Uma pequena caminhada, descendo a rua Ferreira Pena, e chegamos ao prédio da Santa Casa de Misericórdia de Manaus, na rua 10 de Julho. Dona de uma das mais belas arquiteturas entre as construções do século XIX, com uma fachada imponente, a Santa Casa foi inaugurada em 1880.

O prédio abrigou uma das mais importantes unidades hospitalares de Manaus e do Amazonas. Porém, em 2004, com a crise financeira que deixou o hospital na UTI, a Santa Casa fechou as portas.

Afundada em dívidas, e sem contar com apoio do poder público, o casarão da rua 10 de Julho, assiste atualmente hoje o patrimônio arquitetônico ruir, ao passo que madeira, metais, telhados e estruturas elétricas e hidráulicas são furtadas. No interior da construção, moradores de rua e usuários de drogas fazem morada. Vez ou outra, a Polícia registra no local, episódios de prostituição e violência.

Prédio da antiga Santa Casa de Misericórdia abandonado no Centro de Manaus – Foto: Michael Dantas

O prédio chegou a ser desapropriado pelo Governo do Estado, para a construção de um complexo para tratamento de câncer em crianças e adolescentes, mas o ato foi revogado pelo então governador José Melo, que alegou falta de recursos financeiros.

Continuando o passeio pelo centro, chegamos até à área do Porto de Manaus. Ao olhar em volta, observa-se várias construções históricas, com estilos arquitetônicos diversos, porém, a maioria em estado de total abandono, apenas com as paredes intactas, mas sem telhado ou com a erva de passarinho a atravessar as janelas centenárias.

Região do Porto de Manaus conta com vários prédios abandonados -Foto: Márcio Melo

E o Museu do Porto? Há anos está com as portas fechadas. As novas gerações, talvez nem saibam, que no local, há diversas peças históricas, que contam detalhes da história da navegação no Estado. Datado de 1905, o Museu foi uma antiga casa de máquinas do complexo portuário manauense.

Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), o Museu do Porto conta com mais de 300 objetos entre peças utilizadas para navegação, uma locomotiva de época e documentos que demonstram a atividade comercial da zona portuária. “Boa parte desse material está guardado em um local do próprio porto, para evitar que vândalos ou mesmo ladrões invadam o espaço do museu e levem o acervo.

 

 

Prédios fechados tiram da população a chance de conhecer fatos importantes da história – Foto: Márcio Melo

No museu em si, estão apenas peças maiores, que não tem como ser levadas”, disse Jorge Barroso, representante da autoridade portuária. Barroso afirma que há projetos para que a prefeitura assuma o espaço, mas ainda faltam trâmites burocráticos para que a ideia saia do papel.

“Conversamos com a Manauscult e o Iphan sobre o projeto. A ideia é reativar o museu. A prefeitura ainda assumiria o prédio da antiga administração da SNPH e revitalizaria aquela área da cidade, que por muito tempo está esquecida”, completa Barroso.

Outro local que foi ocupado até recentemente e passou a fazer parte da lista de prédios abandonados, é a Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa, na avenida Sete de Setembro. A construção, por mais de um século, abrigou os presos do Amazonas. O nome mudou diversas vezes, mas a finalidade sempre foi mantida.

Desativada em outubro de 2016, funcionava em seus últimos dias como unidade de detenção provisória. Abrigava presos na espera de decisão judicial. Em janeiro de 2017, foi reativada em situação de emergência, após o massacre ocorrido no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, no primeiro dia do ano. Foi desativada definitivamente no dia 12 de maio, repleta de problemas estruturais e de segurança.

Entrada para a área que dava acesso as celas na Cadeia Pública Vidal Pessoa – Foto: Michael Dantas

Embora conserve ainda belos traços arquitetônicos, o prédio está entregue a moradores de rua e tomado pelo lixo. Curiosos caminham pelas dependências, na ânsia de ver corredores, pátios e muralhas, que testemunharam a vida de pessoas vindas do mundo do crime.

No início de junho, o repórter fotográfico do EM TEMPO, Michael Dantas, acompanhou um homem que passou a morar no local após a desocupação. Registrou imagens de um lugar abandonado. Telhas, fios de cobre, papeis, todo o tipo de material reutilizável, transformou-se em alvo de saqueadores oportunistas, em um lugar que, de uma hora para outra, parece ter-se tornado invisível para o poder público.

Raphael Sampaio
EM TEMPO

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