Cultura

Prática teatral qualificou figurinistas de Manaus como profissionais multifacetados

Os figurinistas que atuam nesse nicho artístico em Manaus se dedicam intensamente à montagem de suas composições – Fotos: Divulgação

Responsáveis por ajudar a construir a identidade visual dos personagens do teatro, os figurinistas que atuam nesse nicho artístico em Manaus se dedicam intensamente à montagem de suas composições e também exercem múltiplas funções dentro das produções teatrais. Três profissionais de diferentes gerações apresentam suas histórias e comentam de que forma são reconhecidos pelos trabalhos que desenvolvem.

O experiente Chico Cardoso, 55, figurinista desde os 20 anos, explica que a primeira etapa do seu processo de trabalho envolve, essencialmente, pesquisa, conforme a proposta da peça teatral. “Pesquiso profundamente o tempo, o espaço e a força dramática da linguagem escolhida pelo diretor. O figurino precisa dialogar com a construção imagética adotada por ele. Nessa troca, o figurino vai ajudando a determinar o espaço de cada atuação. E os atores precisam de um invólucro que ajude a leitura de sua personagem pelo espectador. O desafio principal é responder às expectativas da montagem que envolve uma série de exigências. Mas quando tudo funciona o prazer é absurdo”, conta.

Carência de profissionais do figurino na Manaus da década de 1980 obrigou Chico Cardoso a se especializar na área

Cardoso relata que, apesar de atuar como diretor de teatro, enveredou para a carreira de figurinista por conta da carência de profissionais em Manaus, na década de 1980. “Fui obrigado a correr atrás do desenho de figurinos e cuidar de sua confecção com costureiras e aderecistas. Assinei diversas criações para teatro e dança. Mas esse complemento técnico foi essencial para algumas produções de que participei como figurinista”, relembra. Ele já foi premiado pelo Festival de Teatro da Amazônia e hoje contribui com o Festival Folclórico de Parintins, criando coreografias e indumentárias.

Figurino de Eric Lima para “Oração” foi premiado no Festival de Teatro da Amazônia

Com mais de 20 anos de carreira como figurinista, Dione Maciel aponta que, em Manaus, nem sempre encontra os materiais adequados para as suas composições. “Os materiais ainda são escassos aqui. Mas vejo isso como um estímulo para a criatividade do profissional. Nos tira da zona de conforto”, afirma. Ela conta que, durante seu processo de criação artística, acompanha os ensaios, conversa com os atores e até assiste a filmes para buscar referências. Maciel opina que o reconhecimento profissional não é significativo na cidade, mas o cenário está mudando. “Eu já perdi a chance de concorrer a um curso porque fiquei desmotivada ao ouvir de outras duas concorrentes, que eram atrizes, que eu não era considerada uma artista. Eu não estou no palco, mas o meu trabalho está no palco. Mas hoje em dia os profissionais que atuam nos bastidores, como maquiadores, iluminadores, aderecistas e figurinistas, são mais respeitados”, destaca.

Eric Lima, 22, desempenha, dentre outras atividades, a criação de figurinos na companhia de artes cênicas Ateliê 23. Para ele, seu maior reconhecimento é quando “o público não percebe o que o personagem usa, e sim que aquilo que está no seu corpo é uma extensão de quem ele é”. Lima recorda que foi instigado pelo diretor Taciano Soares a levar seu trabalho como ilustrador para o campo de atuação de figurinistas. “Eu sempre tive uma relação com a visualidade e a estética nas artes, mas isso só se desenvolveu no teatro a partir da minha experiência. Pensar de que forma a criação do figurino influenciava a cena foi muito interessante”, ressalta.

Na companhia, Lima diz ter obtido um conhecimento mais amplo da arte teatral. “Eu desenvolvi outras funções para além da criação de figurino, como estar em cena como ator ou bailarino, dirigir um espetáculo, criar e operar iluminação, produzir. Tudo isso mudou a minha relação com a criação de figurinos”. Eric Lima foi premiado no 11º Festival de Teatro da Amazônia na categoria Melhor Figurino Adulto, pelo trabalho na montagem “Oração”.

Kássio Nunes

EM TEMPO

Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas

Subir