Dia a dia

Poluição tira o sossego de freiras em convento local

 

Irmã Letícia disse que não tem mais a quem apelar para reaver a tranquilidade no abrigo Oasis São José – Janailton Falcão

É fato que não se pode prever o futuro, mas, tratando-se de velhice, o que se vem à mente é descanso e sossego. A realidade, porém, é diferente no abrigo Oásis São José, localizado na avenida Torquato Tapajós, no bairro Santa Etelvina, Zona Norte. O lugar agora tem como vizinha uma pista de motocross e, além do barulho, também ficou prejudicado por conta da poeira que advém de uma construtora ao lado, além do lixo.

O lar é destinado às freiras salesianas com idade entre 78 e 95 anos, além de receber também pessoas em fase de recuperação de procedimentos pós-cirúrgicos.

A casa foi fundada há 12 anos e de, acordo com a diretora administrativa da instituição, irmã Letícia Chaves, há ao menos duas semanas vem sofrendo com a pista do terreno vizinho, que começou a ser utilizada.

“Estamos no meio desse caos tendo como nova vizinha uma pista de motocross, que, além do barulho, levanta muita poeira. Temos irmãs com problemas respiratórios e, infelizmente, o mesmo lado da pista é mais próximo à ala das senhoras de 95 anos e com Alzheimer”, disse ela.

A irmã Margarida Cabral, 83, relata que o horário do descanso, após o almoço, não é mais o mesmo.

Do gradil é possível visualizar a poeira que provém da construtora – Janailton Falcão

“Não consigo dormir direito, já me assustei várias vezes com o barulho. No horário da missa, estudo bíblico, orações, tudo fica difícil, principalmente nessa fase da vida em que precisamos de um pouco de paz”, lamentou a freira.

Quem também se sente incomodada com a poluição sonora é a irmã Helena Lima Verde, 95. Ela revela que há horários em que os sons são mais intensos.

“Piores são os dias de quinta-feira, sábado e domingo. Nesta semana foi o dia inteiro o barulho, e só pararam por volta de 18h”, afirmou.

Cuidados

O otorrinolaringologista especialista em ouvido, nariz e garganta João Bosco Lopes Botelho orientou que é necessário fazer medição de quantos decibéis o ruído provoca. “Trabalhando em uma situação hipotética, nós, seres humanos, vamos perdendo, gradativamente e de maneira natural, a audição, a presbiacusia, que é a perda auditiva conforme a idade. Se elas, que são pessoas idosas, na faixa etária de 70 a 95 anos, estão se sentindo incomodadas com o barulho, a lógica é que realmente esteja relativamente alto e supostamente acima de 80 decibéis”, analisou.

O médico pneumologista Mário Fonseca, que é responsável por tratar e acompanhar pacientes com patologias pulmonares e respiratórias, disse que não dá para generalizar, cada organismo responde de uma maneira.

“É claro que em idosos, que já tenham uma doença crônica pulmonar, ao inalarem poeira, há prejuízos à saúde”, explicou o especialista.

Fiscalização

Em todos os cômodos o incômodo é o mesmo segundo as irmã – Janailton Falcão

O Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), por meio da assessoria de comunicação, informou que, quanto ao funcionamento da atividade na pista de motocross, a Secretaria Municipal de Tecnologia e Finanças (Semef) vai fazer busca no sistema e agendar fiscalização no local, a fim de averiguar se ela possui alvará de funcionamento. A demanda já está no setor de fiscalização, segundo a assessoria.

A reportagem também entrou em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) para saber se o órgão estava ciente do que está ocorrendo ao lado do abrigo Oásis São José. A assessoria de comunicação do órgão informou que a Semmas alegou que irá verificar a situação do licenciamento do referido empreendimento e encaminhar uma equipe de fiscalização para avaliar a questão do barulho causado pela movimentação de máquinas e propulsão de motores na área.

Quanto à Construtora Soma Ltda., que funciona também na área, o gerente administrativo Marcos Melo confirmou que a usina de asfalto, localizada ao lado do abrigo, possui alvará de funcionamento e que vai tomar providências em relação ao acúmulo de resíduos.

“Temos um encarregado responsável no local à disposição das irmãs. Quanto aos resíduos, iremos retirá-los de lá para impedir que se tornem foco de dengue. Sempre que elas precisarem ou sentirem incomodadas com alguma ação na usina, estaremos em prontidão”, reiterou Melo.

O desconforto e a reclamação das freiras idosas que moram no abrigo e se sentem prejudicadas chegaram ao conhecimento da Delegacia Especializada em Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema).

O titular da pasta, Samir Freire, informou que o caso será investigado a partir de hoje (24) pela polícia, com base na denúncia.

Bárbara Costa
EM TEMPO

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