Dia a dia

Pesquisa aponta que no Amazonas o sobrepeso já é maior que a subalimentação

Maus hábitos alimentares como o consumo de comidas processadas em detrimento de uma alimentação saudável fazem com que hoje pessoas com sobrepeso e obesas já sejam uma parcela significativa da população do Amazonas – foto: Márcio Melo

Maus hábitos alimentares como o consumo de comidas processadas em detrimento de uma alimentação saudável fazem com que hoje pessoas com sobrepeso e obesas já sejam uma parcela significativa da população do Amazonas – foto: Márcio Melo

Na última quarta-feira (17), a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS/AM) divulgou informação apontando aumento de 14% nos casos de morte por desnutrição no Amazonas. Mas ao contrário do que este dado pode fazer achar, não é a falta, mas o excesso de peso a verdadeira ameaça à saúde da população do Estado.

O diretor-presidente da Fundação de Vigilância Sanitária do Amazonas, Bernardino Albuquerque, explica que esses números não são conclusivos. “Não podemos inferir em um aumento na desnutrição no Estado. Até porque ainda temos o resto do ano para documentar. Além disso, trata-se do registro de óbitos, ou seja, é um dado absoluto, não uma média populacional. O dado fala de mortes como causa principal a desnutrição, não fala que o número de pessoas desnutridas aumentou”, diz.

Para contextualizar melhor o tema, Bernardino explica também que o termo “desnutrição” tem dois desdobramentos que precisam ser entendidos. “Existe a desnutrição quantitativa, onde há baixa ingestão de alimentos e existe a desnutrição qualitativa, no qual o indivíduo consome grande quantidade de alimentos, mas eles não possuem quantidade satisfatória de nutrientes”.

De acordo com a nutricionista e coordenadora das ações de saúde nutricional da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), Tânia Carvalho Batista, mesmo uma pessoa obesa ou com sobrepeso também pode estar subnutrida. “O conceito de subnutrição é a não ingestão de nutrientes em quantidade recomendada para um indivíduo. Alguém que só consome muita gordura saturada e alimentos processados tem baixa taxa de proteínas no corpo e apresenta subnutrição”, afirma.

Interior

Pesquisa produzida pela Universidade de São Paulo (USP), em colaboração com as Universidades de Brasília (UnB), Federal do Acre (Ufac) e do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), por meio de uma série de estudos realizados nos últimos anos com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) aponta que a dieta de comunidades ribeirinhas na Amazônia brasileira, que antes era composta principalmente por alimentos produzidos localmente, como peixe com farinha de mandioca, por exemplo, passou a ser integrada por alimentos industrializados, como enlatados e frangos congelados produzidos nas regiões Sul e Sudeste.

“De uma forma geral, os dados obtidos indicam uma homogeneização do padrão alimentar no Brasil”, diz Gabriela Bielefeld Nardoto, professora da UnB e uma das autoras dos estudos. “Apesar do isolamento, as populações rurais de diferentes regiões do Brasil têm aderido cada vez mais à ‘dieta de supermercado’, composta por alimentos processados e ultraprocessados”, afirma. No estudo, eles compararam os padrões alimentares de populações urbanas de Manaus e Tefé, no Amazonas, com comunidades ribeirinhas situadas ao longo do rio Solimões, cuja principal fonte de proteína era o pescado.

Números comprovam problema

Com dados obtidos na Semsa, a nutricionista Tânia Batista afirma ainda que dados levantados junto ao serviço de saúde básica mostram que o cidadão manauense está mudando seus hábitos alimentares. E infelizmente não é para melhor. “Ainda registramos problemas de desnutrição relacionados à perda ou queda de peso, principalmente infantil, mas de forma cada vez mais reduzida. Em compensação, os casos de obesidade têm crescido cada vez mais, em todas as faixas etárias”, afirma.

Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde, sistema com o qual é feito o monitoramento da situação alimentar e nutricional da população do país, comprovam essa tendência. De acordo com levantamento feito no ano de 2016, as taxas de magreza e magreza acentuada entre crianças de 0 e 6 anos ficaram em 3,1% e 3,3%, respectivamente.

Já as taxas de sobrepeso e obesidade aparecem com 10,4% e 4,2%, respectivamente. Já entre adultos (acima de 18 anos), a taxa de magreza é de apenas 4,85%, sendo que a de sobrepeso aparece com 33,7% e as de obesidade em 15%.

Por Fred Santana

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