Artigos

Pedro descalço e sem medo

Maria Clara  Lucchetti, Teóloga, escritora e professora da PUC-Rio

Maria Clara
Lucchetti,
Teóloga, escritora e professora da PUC-Rio

Adital – Um amigo me envia o link de um filme que passou recentemente na televisão espanhola: “Descalzo en la tierra roja”. Narra a vida de um catalão que hoje tem 84 anos, mas trazia a pujança dos 40 ao chegar ao Brasil, em 1968. Seu nome é Pedro Casaldáliga e frequentou muito as páginas dos jornais nos anos 1970 e 1980, sempre em defesa dos pobres e no epicentro dos conflitos de terra que feriam e marcavam a prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, à qual serviu como padre, bispo, continuando a ali residir e servir até hoje. O filme é longo, dividido em duas partes, e retrata bastante fielmente o processo de conversão por que passou o sacerdote claretiano ao aportar nesta Terra de Santa Cruz e enfrentar a miséria e a injustiça cara a cara. As cenas iniciais nos mostram o padre Casaldáliga vivendo seus primeiros tempos em São Félix, convocado a receber nos braços um bebê morto de malária. E atrás deste vinha uma verdadeira procissão de mães dolorosas carregando igualmente seus filhos dizimados pela doença. Pedro chora. E aí começa sua nova vida.

A narrativa vai desdobrando à frente do espectador as atitudes e o crescimento deste homem forte e cheio de fé e de coragem que, aos poucos, vê que a situação estabelecida à sua volta é fruto de uma radical injustiça, e, portanto, não pode ser vontade de Deus. E assim, o europeu frágil de estatura e compleição, se revela gigantesco no desejo e na entrega à causa dos pobres. O catalão frágil de estatura e compleição, se revela gigantesco no desejo e na entrega à causa dos pobres.

Pedro é poeta. Em uma cena do filme encontra-se em um barco, indo para Goiânia buscar remédios que possam conter o surto de malária que assola São Félix, e escreve em um caderno. O barqueiro lhe pergunta o que escreve, e ele responde: um poema ao rio. Sua sensibilidade é capaz de extasiar-se com a beleza do Araguaia, “que pulsa sob seus pés como uma artéria viva”, com a mata verdejante, e expressar seu louvor em versos ao Criador de toda essa maravilha. E seus versos andam “cheios de Deus como pulmões cheios do ar vivo”.

Pedro é profeta. Sua língua de fogo não hesita em proclamar os direitos dos pobres como direitos de Deus. E ao tomar progressiva consciência da dura servidão à qual os latifundiários reduzem os posseiros que desejam apenas uma terra para cultivar e sobreviver, não poupa denúncias e críticas que lhe valem perseguições e ameaças, as mais diversas e violentas. Mas admite que “não sabe se seria capaz desses caminhos se não estivesse Deus como uma aurora rompendo sua névoa e seu cansaço”.

Pedro é místico. Trata-se de alguém que experimenta a comunhão íntima e ardente com o Mistério de Deus, que é o Sentido de sua vida. Em suas andanças pelo Mato Grosso, pelo Brasil, pela América Latina, sobretudo na explosiva região da América Central, contempla Deus presente no rosto dos pobres. E, no entanto, humildemente, confessa que não sabe se poderia conviver com os pobres “se não tropeçasse com Deus em seus farrapos; se não estivesse Deus como uma brasa queimando seu egoísmo lentamente”.

Pedro é teólogo. Embora sempre tenha sido missionário e não docente ou pesquisador da ciência sacra, seus escritos, seus poemas, mas sobretudo sua vida e sua prática são uma teologia consistente e em constante movimento. Ele a pensa e a faz ao lado dos pobres, cada dia partilhando sua “noite escura”, que só a esperança ilumina. Por isso, proclama que apenas vivendo a noite escura dos pobres se pode viver o Dia de Deus, “pois as estrelas só se veem de noite”. Sua teologia afirma que tudo é relativo, menos Deus e a fome. E ele escolhe a noite, porque a sabe grávida de madrugada. E escolhe a privação porque a adivinha caminho para a plenitude.

Comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas

Subir