Dia a dia

Parintins se mobiliza para não ficar sem festival

Artistas dos bumbás vermelho e azul realizaram ato em frente do bumbódromo, pelo festival - foto: Tadeu de Souza

Artistas dos bumbás vermelho e azul realizaram ato em frente do bumbódromo, pelo festival – foto: Tadeu de Souza

Em 51 anos de história, este ano será a primeira vez que o Festival Folclórico de Parintins (a 369 quilômetros de Manaus) recorre aos artistas dos bumbás Garantido e Caprichoso para evitar corte de recursos do convênio com o governo do Estado e a suposta redução de três para duas noites de apresentação do evento cultural que é referência no interior do Amazonas.

Na última quinta-feira, artistas dos dois bumbás realizaram um protesto contra a proposta de realizar o festival de 2016, em duas noites e não em três, além do corte em 50% no repasse de verba do poder público estadual.

Os problemas do Festival Folclórico de Parintins vão além de uma manifestação de artistas e da própria comunidade. Há algum tempo que se discute a necessidade de revitalização da festa que está para a cidade de Parintins assim como o modelo Zona Franca está para Manaus.

Vários são os fatores que ao longo de 51 anos, a partir do momento que o Festival Folclórico saiu das mãos de um de seus criadores, Raimundo Muniz, e mais tarde do controle do próprio município de Parintins para ser encampado em sua totalidade pelo governo do Estado, contribuíram, e ainda contribuem, para o desgaste registrado nas últimas décadas.

Um deles foi a divisão da festa. Até os anos de 1980 o festival seguia a regra de seus criadores. Era aberto com às quadrilhas, danças e bumbás mirins. Terminava com a disputa dos bumbás Garantido e Caprichoso nos dias 28, 29 e 30.

“Era a nossa tradição”, diz o advogado e presidente da Academia Parintinense de Letras, Narcizo Picanço. Mas, a tradição não suportou a leitura comercial do evento que transferiu o festival para o final do mês de junho, com o ganho de mais visitantes.

Em compensação criou-se dois festivais: o das quadrilhas e dos bumbás. Nessa divisão as quadrilhas e danças folclóricas levaram a pior. Viraram mercadoria de segunda. Sem apoio, foram banidos do bumbódromo, mas resistem se apresentando numa área improvisada da praça dos bois, e prestigiados pela população.

Outro fator preponderante é a ausência de infraestrutura para festa, com um problema crônico: os preços abusivos e setor hoteleiro congestionado. Para complicar o cenário as toadas sumiram das emissoras de rádio de Manaus, Belém (PA) e Santarém (PA). Por fim, a festa perdeu a transmissão de redes nacionais de televisão.

Arrumando a casa

O primeiro passo para estruturar a cidade para a festa, partir do então governador Amazonino Mendes, que em 1997, implantou um projeto chamado “Cama e café da manhã”.  Mais de 70 famílias foram cadastradas e receberam recursos do governo do Estado, via o extinto Banco do Estado do Amazonas (BEA), para a construção de apartamentos para receber os turistas o ano interior, em particular no período de festival folclórico. Era a solução para o setor hoteleiro.

“No início, um sucesso, depois o projeto foi aos poucos sendo abandonado por falta de apoio e hoje acabou”, declara Socorro Lopes, que presidiu a associação de pousadas do projeto.

Pensando nos bumbás, o governador também construiu os currais de Garantido e Caprichoso. Na inauguração, o discurso era que os currais seriam a independência financeira dos bumbás com movimentação o ano todo, a exemplo das escolas de samba do Rio de Janeiro, o que não aconteceu. As atividades culturais neles realizados são sempre particulares.

Festa sob suspeita de fraudes

Outro fator que também contribuiu para o desgaste do festival foram as denúncias constantes de supostas fraudes em resultados nas disputas de Garantido e Caprichoso. A mais escandalosa foi registrada no passado com a veiculação em pleno bumbódromo de um áudio em que se tratava da comercialização do resultado da disputa dos bumbás de 2015. O ano terminou e a opinião pública não tomou conhecimento de alguma penalização aos envolvidos.

Apesar do governo ainda não ter definido o valor de repasse, para este ano, artistas estão temerosos - foto: divulgação

Apesar do governo ainda não ter definido o valor de repasse, para este ano, artistas estão temerosos – foto: divulgação

“Nós sabemos dos erros, agora precisamos nos dar as mãos para corrigi-los e colocar a festa para cima, nossa economia gira hoje em torno da pecuária que vive de pires na mão e do boi de pano. Então, o assunto é muito sério”, avalia o compositor Tadeu Garcia.

Definição

A Secretaria de Estado de Cultura (SEC), por meio de nota, divulgada após o manifesto dos artistas, na última quinta-feira, esclareceu que os valores relacionados ao patrocínio deste ano do 51º Festival Folclórico de Parintins ainda não foram definidos.

“Mesmo diante da crise econômica que atinge todos os setores do Brasil, o governo do Estado não anunciou qualquer corte no orçamento, nem redução dos dias de festa”, destaca a nota.

Por Tadeu de Souza

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