Dia a dia

Palestras e cursos transformam vida de ex-detentos no Amazonas

Projeto Reeducar mudou a vida de ex-presos do sistema penitenciário do Amazonas – Ione Moreno

“Esse projeto mudou completamente minha vida. Em um mês, eu fiz um curso de agente de portaria e no outro já estava trabalhando em uma empresa. Pretendo continuar outros cursos, estudar mais e melhorar o meu futuro”, afirmou o egresso do sistema penitenciário Milton Souza, 23, que foi preso por porte ilegal de arma de fogo, em 2015. Ele é um dos 9.850 jovens que estão em regime de liberdade provisória e participam do projeto Reeducar da Justiça do Amazonas, segundo a coordenadora e idealizadora do projeto Reeducar, a juíza Eulinete Melo Silva Tribuzy, titular da 11ª Vara Criminal.

Tribuzy informou que o projeto foi criado através de uma iniciativa conjunta dela como magistrada do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM) e o defensor público Miguel Tinoco, da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM). Segundo ela, assistentes sociais, psicólogos, advogados, empresários, voluntários participam desta proposta de promover a reinserção social de pessoas que estão saindo da penitenciária com liberdade provisória. “Até dezembro de 2015 tínhamos 8 mil egressos no programa, com uma média que 163 destes voltavam a reincidência criminal. Neste ano, temos dados que somente 169 ‘reeducandos’ de um total 9.850 participantes, que voltaram a cometer crimes na capital”, destacou a juíza Eulinete Melo Silva Tribuzy.

De acordo com Tribuzy, antes de existir esse projeto, o índice de reincidência a crimes em Manaus era muito elevado. “Eles saiam da prisão e não tinham o que fazer. Muitos perderam a casa para pagar advogado. Outros, com a família apavorada foram embora da cidade. Sem esse projeto, de imediato eles vão roubar, beber e usar drogas. Aqui no Reeducar eles encontram uma esperança de responder ao processo e dizer novamente que são cidadãos. Fazemos eles andarem de forma correta, na linha. Muitos ficam propostos a se regenerar”, contou a juíza e coordenadora.

A juíza explicou que através de palestras e cursos que ocorrem as mudanças nos egressos de penitenciárias.

Reeducandos

O conferente de contêiner Fabrício Pereira de Araújo, 27, natural de Belém (PA) que preferiu não divulgar o crime que cometeu em 2013, contou ao EM TEMPO, que através do projeto conseguiu completar o ensino fundamental. Segundo ele, ainda esse ano terminará o ensino médio através de algum projeto de Educação a Jovens e Adultos (EJA) do governo federal. “Na Cadeia eu me perguntava onde fui me meter? O pessoal me chamava para fazer as coisas erradas, só que aí eu pegava e falava para mim: ‘Não!’ Então, após assistir a uma palestra do projeto eu cheguei a vender banana no sinal e ganhei R$ 50 passando o dia todo no sol. Comecei a ouvir outras palestras do Reeducar, procurei emprego, fiz cursos e consegui. Meu chefe sabe da minha história e me ajuda até hoje. Eu saí com essa vontade de mudar. Eu assisti a uma palestra e tudo foi diferente. Comecei a correr atrás. Hoje tenho uma namorada há dois anos e só quero melhorar de vida”, revelou Fabrício Araújo, que ressaltou que ao começar a trabalhar desenvolvia um trabalho básico e hoje é um dos coordenadores de uma empresa privada.

Segundo Araújo, ele entrou no mundo do crime, pois o pai era traficante. “Eu falei para mim mesmo que nunca iria usar drogas, pois meu pai era traficante. Eu não gostava daquilo, mas acabei caindo em tentação. Cheguei a ser preso com os 20 anos, mas não queria continuar nessa vida. Fui para Rio Branco (AC), onde passei um tempo em uma clínica de reabilitação e doutora até pensava que eu tinha desistido do projeto, só que voltei a Manaus. Apresentei todos os documentos e hoje estou todo certinho com a Justiça”, frisou o conferente.

O agente de portaria Milton Souza, também explicou que após passar pela experiência de ficar um mês e meio no sistema penitenciário do Amazonas, teve a vida regenerada pelo Projeto Reeducar. Segundo ele, os coordenadores, a juíza e os parceiros foram fundamentais para essa mudança de vida. “Me interessei de primeira. Tenho um amigo, que é como um irmão e sempre foi um espelho na minha vida. Hoje, alguns amigos de infância pedem que eu faça coisas erradas e tentam me assediar, mas sempre digo não. Eles entendem. Eu falo que é para eles saírem desse mundo e a resposta sempre é a mesma: ‘um dia quem sabe né?’”, disse Souza, que teve a consciência de estudar e mudar de vida.

Thiago Monteiro
EM TEMPO

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