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Palestinos e Israel temem presença de facção islâmica em Gaza e Cisjordânia

Conflitos à parte, israelenses e palestinos lutam contra um inimigo em comum: o Estado Islâmico. Governos dos dois lados agem contra o aparecimento de ativistas do EI, animados com as vitórias na Síria e no Iraque.


O principal ponto de preocupação é a faixa de Gaza, controlada pelo grupo islâmico Hamas.

Para alguns, essa preocupação similar pode levar a uma cooperação, mesmo que indireta e secreta, entre Israel e Hamas.
Segundo relatos não confirmados, nos últimos meses Israel tem conversado, de maneira indireta, com o Hamas no Qatar e na Europa. A mediação estaria sendo feita pelas Nações Unidas.

A ideia seria chegar a uma “hudna” (calmaria) entre os dois lados para que ambos possam tomar medidas contra discípulos do EI sem retomar o conflito do ano passado, que deixou mais de 2.300 mortos (2.251 palestinos e 73 israelenses).

“Não sei se o Hamas e Israel vão negociar diretamente, mas sim existe um interesse dos dois lados em colaborar para evitar o fortalecimento do Estado Islâmico na região”, diz a especialista israelense em contraterrorismo e em marketing estratégico, Anat Hochman-Marom.

“Para o EI, se você não pensa como eles, vai ser morto. Como o Hamas funciona mais em termos políticos e pragmáticos e não defende a criação de um califado em todo o Oriente Médio, se torna inimigo natural”.

O Hamas, de orientação xiita, tem promovido prisões em massa em Gaza para tentar evitar que salafistas sunitas ganhem força no território. Mas há cada vez mais bandeiras negras do EI aparecendo entre a população.

Em Israel, além do temor quanto ao destino de Gaza, há preocupação quanto à formação de células do Estado Islâmico na Cisjordânia, governada pelo partido moderado Fatah, em cidades árabes dentro do próprio país e na fronteira com a Síria.
Mais de cem jovens palestinos se juntaram às fileiras do Estado Islâmico na Síria e no Iraque desde 2014.

Em Gaza, grupos identificados com o EI têm aterrorizado cidadãos com panfletos nos quais ameaçam quem não seguir a sharia (lei islâmica) ao pé da letra.

Numa das brochuras, advertem mulheres a vestir um véu que “deve ser largo e folgado, nem apertado, nem transparente, sem chamar a atenção por beleza ou perfume”.

Já os israelenses contam mais de 30 voluntários árabes-israelense que se uniram ao Estado Islâmico.

No dia 3 de junho, foguetes lançados de Gaza atingiram as cidades israelenses de Netivot e Ashkelon.

O Exército israelense reagiu atacando alvos em Gaza, mas o grupo salafista Brigadas de Omar, identificado com o Estado Islâmico, assumiu a responsabilidade.

O grupo justificou os disparos como retaliação à morte de um de seus membros em um tiroteio com forças do Hamas.

O objetivo dos lançamentos foi cutucar Israel com vara curta, fazendo com que o Exército israelense retrucasse atacando alvos do Hamas, o que de fato aconteceu.

“Esses lançamentos acabam servindo para atacar os dois lados: Israel e o próprio Hamas, que está preocupado e não quer um novo conflito com Israel”, explica Anat Hochman-Marom.

Um alto dirigente do Hamas, Mahmoud al-Zahar, confirmou a preocupação à imprensa local: “Há necessidade de uma coordenação militar e de defesa entre as facções palestinas em Gaza para lutar contra esses espiões traidores”.

Para o analista político jordaniano Raed Omari, não seria uma surpresa se o EI declarasse Gaza como sua nova região administrativa de seu suposto califado.

“Isso poderia ser feito pelo método tradicional do EI. Primeiro ganhando apoio em áreas desprivilegiadas, depois expandindo sua presença recrutando combatentes, vencendo inimigos mais fracos e, finalmente, declarando o território como uma filial”, diz Omari.

A maior inspiração do EI em Gaza é o deserto do Sinai, no norte do Egito.

Lá, há uma presença ativa de militantes, incluindo a fronteira com Gaza. Só neste mês de junho, o EI executou dois supostos “espiões sionistas”.

Em Israel, o nervosismo também aumenta no norte do país.

Informações sobre massacres de drusos do lado sírio das Colinas de Golã têm feito com que conterrâneos do lado israelense (anexado por Israel depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967) entrem em desespero.

Os drusos de Golã estão divididos entre o tradicional apoio ao regime de Assad e o suporte aos insurgentes, entre eles o Estado Islâmico.

Já os drusos que vivem em outras partes de Israel são considerados cidadãos leais do país, servindo normalmente no Exército.

No vilarejo druso-israelense de Yarka, centenas de manifestantes saíram em passeata no dia 14 de junho pedindo intervenção internacional para salvar seus conterrâneos sírios.

Líderes comunitários pediram até mesmo ajuda aos Estados Unidos. A marcha fez com que a vice-chanceler israelense, Tzipi Hotovely, anunciasse estar cogitando abrir as fronteiras do Golã com o lado sírio -o que raramente acontece- para receber refugiados sírios.

“É interessante ver como Israel vai agir agora, se vai abrir as portas para que drusos da Síria entrem em Israel. Acho que Israel não deveria se intrometer oficialmente na queda de braço da Síria. Mas o que o país faz por baixo do radar são coisas secretas que não devem ser discutidas”, diz Anat Hochman-Maron.

Por Folhapress

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