Dia a dia

Padre da paróquia de São Geraldo viaja para o Sul com a missão de formar novos sacerdotes

Natural do município gaúcho de Protásio Alves, Gelmino lembra que chegou em Manaus em 2008. Dois anos depois, com a chegada dos haitianos, uma história de amor e fé surgia em sua vida - foto: Ione Moreno

Natural do município gaúcho de Protásio Alves, Gelmino lembra que chegou em Manaus em 2008. Dois anos depois, com a chegada dos haitianos, uma história de amor e fé surgia em sua vida – foto: Ione Moreno

Após 8 anos de trabalhos voltados à caridade para com o próximo, o padre Gelmino Costa, 68, da Paroquia São Gerado, no bairro São Geraldo, Zona Centro-Sul, deixará um legado de amor, fé e perseverança à igreja e aos imigrantes do Haiti que foram amparados por ele em 2010. Abraçando a causa dos imigrantes haitianos com muita dignidade e esforço, o missionário da congregação dos scalabrinianos encerra sua missão em Manaus com a sensação de que ofereceu o melhor em favor dos mais carentes.

No dia 16 de maio ele partirá para Porto Alegre (RS), para auxiliar na formação de seminaristas, futuros padres, mas acredita que a missão de atender o próximo continuará em qualquer lugar que estiver.

“Deixarei Manaus para abraçar outras causas em favor dos que precisam. Nossa missão aqui na terra é amar uns aos outros, e todos os dias Deus nos apresenta situações em que precisamos colocar isso em prática. Irei com a certeza de que fiz tudo para ajudar os que têm fome não só de comida, mas de Deus. A Igreja Católica aqui em Manaus abraçou a causa dos haitianos que vieram para esta cidade carregando apenas a esperança de um novo recomeço. Com muita dedicação, conseguimos ajudá-los a viver com um pouco mais de dignidade”, declara.

De acordo com o sacerdote, na fé católica deve-se praticar a caridade ao próximo, não por obrigação, mas por amor e de forma espontânea. “Nos ocupamos com todo o tipo de serviço em favor das pessoas, a questão migratória é uma delas. E quando surgem necessidades extremas, nos prontificamos a desenvolver um trabalho social”, conta.

Natural do município gaúcho de Protásio Alves, Gelmino lembra que chegou em Manaus em 2008. Dois anos depois, com a chegada dos haitianos, uma história de amor e fé surgia em sua vida. “Um longo trabalho se iniciou em 2010. Meus dias não foram os mesmos depois que me dediquei aos haitianos. Trabalhamos das 6h às 23h, todos os dias. Não sei se consegui cumprir minha missão, mas posso dizer que trabalhei muito”, avalia.

Apoio

O missionário relembra que, na época, Manaus não contava com estrutura para acolher os haitianos, e o poder público desviava a atenção para a causa. “É certo que a Igreja Católica também não estava preparada para recebê-los, mas erguemos a nossa fé, e juntos oferecemos sonhos a estes desabrigados”, destaca ele, chamando atenção para o fato de que foram abrigados mais de 800 haitianos em Manaus no período de 2010 a 2015.

As famílias foram distribuídas em mais de 15 abrigos, segundo o pároco. As casas possuem dormitórios, salas, banheiros e cozinhas. A maior parte dos mantimentos é doada pela igreja de São Geraldo e demais comunidades católicas. No início, quando mais de 1.500 haitianos vieram para Manaus, os trabalhos tiveram apoio de algumas instituições. “Somos articuladores de uma ação que, indiretamente, foi tocada à frente por muita gente. A fundação espírita Alan Kardec contribuiu muito nessa causa. Recebemos várias doações, além da ajuda de populares que se sensibilizaram com a situação”, recorda.

Boa parte dos haitianos que estão em Manaus não é católica, o que passa ser uma experiência de trabalho atípica, conforme analisou o padre Gelmino. “Eu diria que 95% deles são de igrejas evangélicas, distribuídos nas principais denominações, como: Batista Assembleia de Deus, e Adventista. É um fato muito interessante. Eles buscam como apoio para suprir suas necessidades a igreja católica, mas escolhem igrejas evangélicas para seguir como doutrina”, observa.

Para o clérigo, o desejo de doação ao próximo depende da visão que se tem de Deus, da pessoa que se é e da igreja que se participa. Ele cita o versículo 35, do capítulo 25 do evangelho de Mateus, que demonstra quando a fé se torna caridade. “Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber, fui estrangeiro e vós me acolhestes. Deus é amor e a nossa fé se mede pelo amor. A minha definição de fé é aquilo que a minha caridade mostra. Nos aproximamos de Deus quando amparamos um pobre, visitamos um doente ou abrigamos um estrangeiro. Nesse momento sentimos Deus mais perto, muito mais do que na oração. A oração é um dos caminhos, mas a caridade é o caminho mais curto”, avalia.

Saudades

Ao recordar os momentos vividos em Manaus, emocionado, o sacerdote afirma que guardará as melhores lembranças de sua estadia aqui. “Não temos paradeiro certo. Somos missionários da fé e vivemos plantando amor em todos os lugares do mundo. Claro que sentirei saudade de Manaus. São cortes grandes, mudanças radicais, mas estou disposto para este novo desafio. Me desfaço de um povo e faço outro em todo lugar. A saudade diminui com a outra família que a gente ganha”, pontua.

Por Bruna Amaral

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