Dia a dia

OMS aponta Amazonas como o segundo lugar no ranking nacional de novos casos de HIV/Aids

Com o crescimento do índice de contaminação, Semsa prepara campanhas de prevenção - foto: Divulgação/Semsa

No evento foram realizados testes rápidos detecção HIV, além de distribuições de camisinhas e palestras sobre o tema – foto: divulgação

Em uma pesquisa divulgada em setembro de 2015 pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Amazonas aparecia como o segundo Estado no ranking nacional de novos casos de detecção de HIV/Aids, com 37,4 registros a cada 100 mil habitantes, sendo os jovens os mais atingidos. Como resposta, foi criado em fevereiro de 2016 o programa Viva Melhor Sabendo Jovem, parceria do Ministério da Saúde com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Na tarde da última quarta-feira (20), a equipe do projeto ofereceu testes rápidos para HIV no parque dos Bilhares, na Zona Centro-Sul além de distribuir camisinhas, bater papo e promover educação. Aproveitando a oportunidade, a equipe de EM TEMPO acompanhou a ação para conversar com os presentes sobre como um assunto tão delicado quanto a Aids é tratado em casa com a família.

Joana Rocha, da coordenação estadual de prevenção à DST/ Aids e também integrante do projeto, afirma que ainda há muita resistência dos pais em tratar o assunto. “A questão da sexualidade ainda é um tabu, mesmo com a escola abordando diversos temas relacionados. Muitos pais e mesmo educadores ainda encontram dificuldade por questões comportamentais ou religiosas”, explica. A coordenadora afirma que trata do assunto com os filhos sem restrições. “Alguns pais acham que os filhos são assexuados. É aí que mora o perigo. Eu tenho a noção de que preciso conversar isso com meus filhos abertamente”, ensina.

O educador social e membro do projeto João Marcos Batista, de 21 anos, afirma que a mudança de paradigma social de outros tempos também contribui para o distanciamento dos pais. “Antes, os pais tratavam os filhos de forma diferenciada quanto ao sexo. O filho era levado a ter sua primeira relação sexual com uma profissional do sexo, enquanto as moças eram criadas para serem donas de casa. Nas últimas décadas, isso mudou completamente. Muitos ainda estão se adaptando à nova realidade. Até por isso nosso projeto utiliza jovens. A qualidade da comunicação é melhor”, analisa.

“Não, falamos muito pouco nisso. O pessoal da minha família ainda tem um pouco de receio de conversar sobre isso. Eles sabem que é importante, mas se puderem evitar, evitam”, afirma o psicólogo Ednaldo Gomes, de 29 anos, que soube do evento por meio do WhatsApp. Apesar da restrição, Ednaldo mostrou naturalidade ao tratar do assunto. “Temos de acabar com esse preconceito. É um exame como outro qualquer e temos de fazer sempre”, pondera.

No meio dos presentes, uma agradável surpresa. A funcionária pública aposentada Maria Aparecida Pimentel, de 64 anos, que soube da ação pela TV, se prontificou a fazer o teste como forma de incentivar o neto Jefferson, de 13 anos, que também estava presente no local. E para fugir à regra, a aposentada afirma que na sua casa há total liberdade para discutir o assunto. “Meus netos ficam um pouco constrangidos, mas nós sabemos que não é besteira, mas sim a realidade. Temos total liberdade para conversar sobre isso”, afirma.

Dados alarmantes

Segundo o Boletim Epideomológico publicado pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, em 2013, no ranking da taxa de detecção de Aids entre os Estados do pais, o Rio Grande do Sul e Amazonas apresentam as maiores taxas, com valores de 41,3 e 37,4 casos para cada 100 mil habitantes.

A maior incidência está na população masculina, nas faixas etárias entre 20 e 34 anos, mas o aumento de jovens de 15 a 24 anos infectados pelo vírus HIV tem sido motivo de preocupação para os órgãos de saúde. No Amazonas, em 2014 no período entre janeiro e julho, foram registrados 1.204 casos. Em 2015, no mesmo período, foram listadas 622 pessoas. Entre os municípios amazonenses, Manaus está no topo da lista com o maior número de infectados pela Aids, seguido de Tabatinga e Parintins.

Progama tem êxito

A ideia das ações promovidas pelo programa Viver Melhor Sabendo é levar informações e ofertando testagens para IST/HIV/Aids e Hepatites Virais, além de trabalhar temas como sexualidade, gênero, orientação sexual e diversidade.

“O método que usamos é a linguagem de pares, de jovem para jovem. A turma do hip-hop tem os interlocutores do hip-hop. A turma do skate tem os seus interlocutores. Essa linguagem é muito mais acessível e eficiente porque alcança o jovem dentro do seu habitat”, afirma João Marcos Batista.

A ação do Parque dos Bilhares foi a quarta promovida pelo grupo que já realizou 250 testes em pessoas de 13 a 32 anos, de fevereiro até o momento. A meta é realizar cem testes por ação. Até o momento, apenas um resultado foi positivo. No entanto, esse único caso não deixa de ser preocupante, uma vez que a amostragem de teste também foi baixa. “De 250 testes feitos aleatoriamente na cidade, um testou positivo. Parece pouco, mas pensando na quantidade de jovens que a cidade possui, não é”, explica Efrain.

Os próximos passos do programa são o Festival Folclórico do Centro Social Urbano (CSU) do bairro Parque 10 de Novembro, Zona Centro-Sul, e o campus universitário da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O resultado oral dos testes é divulgado por uma equipe de profissionais da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa). Para receber o resultado completo por escrito na hora, é preciso estar com algum documento de identificação com foto. Caso contrário, apenas o resultado oral é divulgado.

Qualquer jovem pode comparecer para realizar o exame, mesmo sem a presença dos pais. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) dá amparo para a realização dos testes nesses casos. Em caso de testagem positiva, o pacientes recebe o resultado já acompanhado de um psicólogo e logo em seguida é encaminhado para o posto de saúde mais próximo.

Por Fred Santana

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