Editorial

O novo rosto do profeta

Por ser proibida pela religião a representação de Deus e de suas criaturas, torna-se impossível rastrear a verdadeira face do profeta Maomé ou de Jesus ou Buda.

Os judeus radicalizam e não admitem sequer a nominação do ser superior em quem acreditam. Não há nome que o revele ou identifique – não os profetas dos judeus, mas os rabinos ortodoxos são insuperáveis em suas aparições: criou-se uma clicheria única dessas figuras, que enriquecem o anedotário falado, escrito ou cinematografado.

O cinema – desde que era mudo – criou várias identidades físicas para Jesus. Algumas levaram o Vaticano às raias da censura, outras encantaram o público (quem se esquece dos olhos do Jeffrey “Jesus” Hunter, em “O Rei dos reis” ou do Jesus que andava como se a polícia estivesse atrás dele em “O evangelho segundo são Mateus”, de Pasolini?) O semanário francês “Charlie Hebdo” inventou uma face para Maomé e levou certos círculos islâmicos, literalmente, à loucura. Uma face bastante simpática do profeta (para uma certa visão liberal).

Mas essa loucura armada acabou ratificando uma face que pode ser ou não de Maomé. Quem pode garantir que o desenho é a imagem do profeta? Esse traço terá sido sequestrado de algum livro sagrado – como seria possível se é proibida a representação do sagrado, mesmo em livros sagrados? A intolerância tropeça nos paradoxos que imagina. Mais recentemente – na verdade, domingo 18 – surgiu um rosto de carne e osso do profeta muçulmano.

Como que anunciando o que os paulistas podem esperar dele, o novo secretário de Justiça de São Paulo, Aloisio de Toledo Cesar, criticou os cartunistas do “Charlie” em sua conta no Face: “Posso dizer, inconformado com o mau uso da liberdade de expressão pelos franceses, que eu também sou Maomé”. E o profeta ganhou um novo rosto.

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