Editorial

O abismo como legado

Construir casas nos barrancos da orla da cidade é como pendurar-se na janela de um 13º andar de um prédio e esperar que a sorte não o jogue na calçada, lá embaixo. É difícil sair vivo de uma experiência como essa ou sem graves sequelas. Não é exatamente suicídio, mas viver perigosamente, o malabarismo que a necessidade de ter um teto sobre a cabeça exige da pobreza desesperada que chega a uma cidade que já não tem espaço nem para os seus mortos nos cemitérios.

Esta é uma visão por atacado de um problema só percebido no varejo das tragédias quase cotidianas, tomadas como contingências, coisas do destino, má sorte de quem despencou do 13º andar. É ainda mais, uma antiga convivência, pois a primeira e única intervenção de planejamento da cidade deu-se na gestão de Eduardo Ribeiro, ironicamente homenageado com o seu nome em uma avenida invadida por vendedores ambulantes e um hospício. Esse homem era chamado de “O Pensador”, por alguma razão perdida na história da caótica capital amazonense.

Essa realidade saturada de mesmices pareceu que teria uma nova estratégia administrativa, sustentada pelo oportunismo da realização de uma Copa do Mundo, um foco de atenção que não poderia ser maculado por esse cinturão de favelas penduradas no abismo que cerca Manaus. É o que se pode observar nas intervenções no projeto Prosamim, do governo estadual, que transforma os vales superpovoados em corredores de esgotos a céu aberto, e nas medidas sempre anunciadas, mas jamais cumpridas, de contenção das áreas prestes a desabar.

Hoje, ainda se contabiliza o custo da falta de prevenção e de previsão. Uma conta que sai do bolso de cada amazonense que paga impostos, taxas e tributos. A conta de um evento que não é lembrado nem por quem nunca esteve à beira do abismo.

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