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Nomes das operações policiais

É realmente curioso ver que, mesmo dentro de um clima de estresse, os policiais e o Ministério Público conseguem nomes fantasiosos para as operações. Não somente a operação principal tem nome bem escolhido, mas também os desdobramentos que vão surgindo no desenrolar dela. Personagens bíblicos, como Zaqueu e outros misturam-se com deuses gregos, personagens de livros, de filmes, nomes de cidades, plantas, flores, animais, novelas e muitos, muitos outros. Não sei se a Polícia Federal tem um “setor” que escolhe nomes como as indústrias automobilistas e as incorporadoras têm os marqueteiros para a escolha do nome do carro ou do prédio, mas a criatividade é muito boa.

O desdobramento da Operação Lava Jato, que não deixa de descobrir sujeiras e manchas desde 2014, está em sua trigésima terceira fase. Isso mesmo, sub operação 33. O nome escolhido: “Resta Um”. Não é nenhum nome bíblico, nem de livro muito menos alguma mitologia. Trata-se de um jogo de quebra cabeças ou, como diriam os mais jovens: um puzzle. Neste jogo de tabuleiro há 33 buracos e igual numero de pinos ou bolinhas. O jogo consiste em tirar um pino, de algum ponto do tabuleiro e criar um ponto vago onde algum pino possa “pular” por cima daquele que está ao lado do buraco vago. O pino que serviu de trampolim é removido. O importante que o pino que eliminou um, sirva de trampolim para outro e assim também ele é eliminado. No final, o último não terá mais trampolim e assim resta no tabuileiro.

O jogador iniciante não consegue fazer restar apenas um, deixando, às vezes, cinco ou mais pinos isolados que permanecem do tabuleiro. O nome para a operação 33 não podia ser mais sugestivo. Com as delações premiadas, todos os trinta e três (ou mais) pivôs da corrupção no Brasil estão ameaçados de servirem apenas de trampolim ao próximo, que por sua vez também serve de trampolim e é afastado do tabuleiro. Difícil é saber quem é o “um” que vai restar.

O Brasil não estava acostumado a ver rolar cabeças coroadas. Tudo começou com Collor e a prisão do sócio dele, Paulo César Farias. O brasileiro comum viu que não eram apenas os ladrões pé de chinelo que podiam ser punidos. Também os grandes corriam riscos. Contudo, o acesso à corrupção não pode se transformar “direito adquirido”. Os que vieram depois de 2002 acreditavam que podia. Onde antes havia corrupção pontual, foi instalada a corrupção sistêmica, com taxas definidas, distribuição não muito igualitária entre os amigos. Partindo da máxima de quem está no poder rouba, assumindo ao poder o direito de roubar passa a ser de quem assume. Neste caso, ouve aprimoramento, organização e aumento de produtividade. AS estatais quebraram e o governo “conclama” a todos para ajudar, via aumento de impostos, para que o país também não quebre.

Na verdade, muitos políticos de esquerda alardeiam quem estão sendo roubados há 500 anos. O que não se esperava é que queriam tudo de volta em uma vez em 13 anos. Isso, é claro, em nome do povo, embora o dinheiro ficasse apenas para alguns. No comunismo todos são iguais, mas, alguns são mais iguais que os outros. Parafraseando o filme dos anos 1960 “Direito de Nascer”! poderia ser criada a operação “Direito de Roubar”. Quem sabe, imitando Juscelino Kubitschek, com sua frase “50 anos em 5”, criar a operação “500 anos em 13”.

As pessoas conseguem fazer brincadeira com coisa séria. Ninguém suporta ser roubado, embora não seja nenhuma cena agradável ver pessoas sendo presas. O Poder Executivo e o Legislativo já mostraram sua parte podre. O empresariado e parte da imprensa também. Podemos brincar com nomes e apelidos. O que jamais devemos esquecer é que ninguém está acima da lei, principalmente o judiciário. Já houve ações contra ele, embora tímidas. Que nome se daria a uma operação que mexesse com a cabeça do Supremo?

Luiz Lauschner
Escritor, empresário

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