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Amazônia: torre ATTO trará mais conhecimento sobre as mudanças climáticas globais

Maior torre de pesquisa climática do Hemisfério Sul, a obra do ATTO custou cerca de 8,4 milhões de euros - fotos: Ricardo Oliveira

Maior torre de pesquisa climática do Hemisfério Sul, a obra do ATTO custou cerca de 8,4 milhões de euros – fotos: Ricardo Oliveira

O Brasil acaba de entrar para o seleto grupo de países que possuem torres de estudos climáticos de alta complexidade. Com 325 metros de altura, o Observatório de Torre Alta da Amazônia (ATTO, na sigla em inglês), só é mais baixo do que a Tall Tower Network, nos Estados Unidos, com 447 metros. Mais importante do que o tamanho, contudo, é a capacidade da torre ATTO de promover ciência de ponta acerca do papel da Amazônia nas mudanças climáticas em nível global.

“Essa torre vai integrar processos biológicos a partir da observação de uma área muito grande da floresta amazônica. Isto permitirá estudos mais abrangentes do papel da floresta no clima regional e global, e sua interação com a atmosfera”, explica o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do Programa de Larga Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do qual o Projeto ATTO é um dos componentes.

Segundo Artaxo, uma das vantagens da ATTO é a sua localização privilegiada, onde, por cerca de 1,5 mil quilômetros, até o Oceando Atlântico, só existe a própria floresta e não há qualquer emissão antropogênica. “Queremos estudar como a Amazônia funciona naturalmente, então é fundamental eliminar qualquer possibilidade de poluição causada pela interferência humana. Observamos que região tem episódios de secas e de enchentes severas. Ou seja, o clima apresenta uma variação natural muito grande e é preciso entender essa variabilidade”, salienta o especialista.

Erguida na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, entre os municípios de São Sebastião do Uatamã (AM) e Itapiranga (AM), a cerca de 150 quilômetros, em linha reta, de Manaus, a gigante levou quatro anos para ser construída e consolida parceria entre o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Max Planck Institute for Chemistry, da Alemanha. “É uma grande conquista para a ciência mundial”, declarou o ministro de C,T&I, Aldo Rebelo, durante a inauguração da ATTO, dia 22.

O pesquisador alemão Christopher Pöhlker, do Instituto Max Planck, disse que, com a torre alta, é possível monitorar uma área muito maior. “A pergunta chave é: como a biosfera, a floresta e a atmosfera interagem? Também queremos entender como o ciclo hidrológico, a atmosfera e a floresta estão ligados, se isso está sendo alterado, se a poluição humana está transformando a qualidade da atmosfera e também se está afetando o ciclo das águas. São muitas questões científicas a serem respondidas”.

O reitor da UEA, Cleinaldo Costa, observou que “a torre foi construída dentro de uma reserva que, pelo menos nos próximos 20, 30 anos, não deverá haver nenhuma interferência do homem no local”. Divino Silvério, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) que acompanha o desempenho das torres, acrescenta que os dados coletados vão permitir a compreensão de como mudanças no uso da terra e as queimadas afetam o ecossistema.

“As informações coletadas nas torres são de extrema importância pois além de integrarem e complementarem dados que estamos coletando para o experimento de savanização, em realização na parte leste da Amazônia, também podem ser utilizados como calibração de modelos climáticos e de vegetação, calibração de satélites e produtos de sensoriamento remoto”, destacou Silvério.

Referência mundial

De acordo com Antonio Manzi, pesquisador do Inpa e coordenador brasileiro da ATTO, o projeto foi concebido como um laboratório de referência mundial. “Os resultados obtidos fornecerão um grande avanço na representação das florestas tropicais, em modelos de sistemas meteorológicos e da Terra para gerar previsões de tempo e cenários muito mais precisos sobre o clima”.

Luiz Renato França, diretor do Inpa, aponta as vantagens da cooperação internacional para o avanço da pesquisa cientifica. “Esta fascinante cooperação científica é uma clara ilustração de como uma tarefa gigantesca, que beneficia todo o planeta e a humanidade, pode ser desenvolvida quando dois grandes países, localizados em diferentes e distantes continentes, trabalham juntos em harmonia”.

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Entendendo a Torre

No alto da torre, serão instalados instrumentos capazes de medir com precisão fluxos de água, concentração de gás carbônico, metano, óxido nitroso, ozônio e muitas outras propriedades químicas, a fim de analisar o impacto da concetração desses gases na floresta e vice-versa. Os 325 metros do ATTO vão possibilitar o monitoramento de uma área jamais alcançada antes, de milhares de quilômetros.

Números da ATTO

Maior torre de pesquisa climática do Hemisfério Sul, a obra da ATTO custou cerca de 8,4 milhões de euros. O projeto foi financiado pelo Ministério Federal de Educação e Pesquisa (BMBF) da Alemanha, pelo MCTI do Brasil e pelo governo do Amazonas. A expectativa é que todos os equipamentos de medições estejam instalados até 2017.

A estrutura pesa 142 toneladas e é formada por um conjunto de 15 mil peças. É uma tecnologia nacional, projetada pela San Soluções Empresariais, do Paraná. As peças foram transportadas de Curitiba à Reserva por seis carretas que percorreram 4,5 mil quilômetros até Humaitá (AM), onde foram embarcadas em uma balsa que percorreu os rios Amazonas e Uatumã.

Por Stenio Urbano

1 Comment

1 Comment

  1. Nelson Carlos dos santos

    30 de agosto de 2015 at 22:47

    Só uma perguntinha. Esta torre não está na rota de aéronaves?

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