Política

‘Não posso calar deputados’, diz Cunha sobre protesto e oração de evangélicos

Evangélico e defensor de posições conservadoras na área dos costumes, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse nesta quinta-feira (11) não ver empecilho à manifestação no plenário da Casa feita na véspera por deputados ligados a grupos religiosos.


Em reação à simulação da crucificação de uma transsexual na Parada Gay de São Paulo (dia 7) e a manifestações de sexo explícito com imagens sagradas, parlamentares liderados pela bancada evangélica interromperam a votação da reforma política na quarta (10) exibindo cartazes com essas imagens. Ao final, rezaram um Pai-Nosso.

A sessão era presidida por Cunha.

“Não emiti opinião. Já vi várias manifestações de várias naturezas acontecerem no plenário, como bater panela ou levantar [cartazes de] carteira de trabalho. Não posso impedir a manifestação do parlamentar, não posso calar a boca de parlamentar, como não impedi de bater panela”, disse o presidente da Câmara.

Ele se referia a protestos de oposicionistas contra o governo Dilma e de petistas, no caso das carteiras de trabalho, na votação do projeto de regulamentação das terceirizações no país.

Cunha disse ainda que, caso haja apoio suficiente dos líderes das bancadas partidárias, colocará para votação projeto de lei que torna crime hediondo a profanação de símbolos religiosos e a discriminação de religiões.

Durante a sessão de quarta, o deputado Roberto Freire (PPS-SP) foi o único a criticar a manifestação, sob o argumento de que o plenário e o Estado laico mereciam respeito.

COMBINADO

A manifestação no plenário foi combinada em reunião das bancadas evangélicas e católica na noite terça-feira (9). Na ocasião, ficou definida a impressão de cartazes com as cenas de manifestações LGBT que vinculavam imagens sagradas ao sexo e a expressão: “Você é a favor disso?”.

“Não foi uma ação contra a marcha gay, mas contra todas as manifestações e marchas que atacam símbolos religiosos e cristãos sem nenhum respeito”, disse o deputado Pastor Marcos Feliciano (PSC-SP). O deputado disse que Cunha foi avisado com antecedência sobre o protesto.

“Essas manifestações de rua devem respeitar os cultos religiosos, não devem atacar símbolos religiosos. O Estado brasileiro laico tem que ser defendido, não se pode misturar política com religião”, afirmou o deputado Celso Russomanno (PRB-SP), cujo partido é ligado à Igreja Universal do Reino de Deus.

Católico, ele não quis emitir opinião sobre o ato no plenário, apenas repetiu o gesto que outros evangélicos manifestaram à reportagem: apontou o crucifixo que fica sobre a Mesa Diretora do plenário. Além desse símbolo religioso, todas as sessões da Câmara são iniciadas com a repetição da expressão “sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro iniciamos nossos trabalhos”.

“Sou a favor e defendo a realização da Parada Gay, mas eles não podem ultrapassar limites e ofender as religiões. Em relação à manifestação feita no plenário, eu acho que não há impedimentos porque os deputados têm o direito de se manifestar. E a reza é bem menos ofensiva do que os excessos cometidos na parada”, disse o líder da bancada do PSDB, Carlos Sampaio (SP).

“O Estado é laico, mas as pessoas não. E o plenário sempre foi palco de manifestações”, reforçou Leonardo Picciani (RJ), líder da bancada do PMDB.

CRÍTICAS

Alguns poucos deputados criticaram o ato, sob o argumento de que o plenário da Câmara não deve ser palco de manifestações religiosas.

“Foi um ato completamente indevido. Transformar o plenário em um templo é inadmissível. Eu sou contra, e falo do meu lugar de cristão católico, que participa inclusive de celebrações na CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil]”, afirmou Chico Alencar (PSOL-RJ).

“Me parece que é a primeira vez na história do Parlamento em que, em plena ordem do dia, se faz uma cerimônia religiosa.”

“Foi inapropriado. Todos devem ter liberdade de manifestação, mas somos um Parlamento laico, representamos todas as crenças e a não crença”, disse Jutahy Magalhães Júnior (PSDB-BA).

Por Folhapress

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