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Não deixar a peteca cair II

Escritor e empresário

Luiz Lauschner
Escritor
e empresário

Dizem os poetas que quem faz a poesia é o leitor e não quem a escreve. Assim também muitos textos são interpretados por quem os lê de maneira mais ampla do que aquele que tem o compromisso de condensar as ideias no espaço que lhe cabe.

Na maioria das vezes, a ideia de um texto é apenas o início de uma grande reflexão. Quero registrar a pergunta feita pelo leitor G.L.O. referindo-se a meu primeiro artigo com o nome acima. Ele pergunta: “Em épocas de crise como estamos vivendo, os governos não deveriam ajudar à população em vez de tentar tirar mais dela?”
A aplicação descarada da máxima “farinha pouca, meu pirão primeiro” está patente no governo em todos os níveis. Tentar ressuscitar o imposto do cheque é apenas a ponta mais visível da voracidade arrecadadora.

Não é exclusividade de nenhum partido, uma vez que quando se trata de meter a mão no bolso do cidadão, todos são iguais. O governo do Estado de São Paulo quer aumentar a alíquota de ICMS sobre a bebida e o cigarro para 25%. Com isso chegaria a mesma taxa praticada no Amazonas há mais de 20 anos. Governo do estado que, por sinal, incrementa a Nota Fiscal como objetivo de tirar mais do povo. Povo esse que, penalizado por políticas públicas que levaram à crise, agora é convidado a pagar a conta da inépcia do poder público. A desculpa sempre é a mesma: diminuir a sonegação.

É tão importante que o governo vá bem quando o povo vai mal? Quando o governo federal admitiu que dará um calote de mais de trinta bilhões em 2016 estava apenas disfarçando outro rombo muito maior. Convenhamos que cortar 30 bilhões de um orçamento de 1,3 trilhões não é nenhuma façanha hercúlea. São menos de 2,5%. Uma dona de casa economiza dez vezes isso apenas trocando a marca de um e outro produto, substituindo outros e apagando as luzes mais cedo à noite. O cidadão que sustenta a estrutura paquidérmica dos governos é forçado a abrir mão de muitos privilégios para pagar uma conta que não fez. Já está espaçando a saída a restaurantes, os passeios de carro para economizar combustível, diminuindo a compra de roupas, móveis, cosméticos etc. Só falta lhe pedirem para fechar a boca para não comer nem reclamar.

De um modo geral, o governo ainda não deu nenhuma demonstração de querer diminuir o custo de sua máquina. Faz até cortes em pontos essenciais, contanto que não sejam os socialmente organizados, com alto poder de barganha. O anúncio tardio da diminuição do salário da presidente e dos ministros bateu fofo. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes quer impedir o aumento do imposto sobre bebidas em São Paulo porque prejudica o setor. Alguém mais reclama do aumento de impostos e de cortes em setores essenciais?

A vaca emagreceu, está quase raquítica, portanto sem leite para dar. O governo não quer saber disso. Na birra arrecadadora não quer saber se o pato é macho, quer o ovo de qualquer maneira. Espreme ao povo eleitor como este fosse o causador de tudo. Mai uma prova que o governo não cria nada, apenas toma 100 para entregar 60 ou menos. Ninguém vislumbra o fim da crise. De uma coisa, no entanto, todos podem ter certeza: se houver retorno do crescimento, o governo criará mais mordomias para avançar no bolso mais farto do consumidor. É hora de dar um basta nisso.

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