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Moradores do Cacau Pirêra sofrem com cheias do Rio Negro

“Estamos iguais a um animal anfíbio, morando no molhado e no seco”, afirma morador - foto: Ione Moreno

“Estamos iguais a um animal anfíbio, morando no molhado e no seco”, afirma morador – foto: Ione Moreno

A população que vive no Cacau Pirêra, distrito do município de Iranduba (a 22 quilômetros de Manaus), está vivendo, literalmente, na água e na terra firme, por conta da cheia do Rio Negro. “Estamos iguais a um animal anfíbio, morando no molhado e no seco”, disse Ivete Batalha, 44, que fica com água até os joelhos quando precisa cozinhar.

Moradora da rua 8, Ivete trabalha coletando limões e só recebe diárias quando produz. “Por mês consigo uns R$ 200 e não me sobra nada para comprar madeira”, contou. A casa dela é dividida em dois cômodos e, com tábuas que formam pontes improvisadas, ela vai de um cômodo para o outro, mas a madeira não foi suficiente para toda casa e na cozinha não há ponte e nem maromba. A cama dela está próxima ao teto.

A água é suja e o medo é que os netos contraiam doenças. Em uma casa vizinha a de Ivete, uma criança de dois anos caiu e engoliu água. O pai dela, o carpinteiro Junior Farias de Sousa, 39, disse que o filho contraiu diarreia e vômito. “Meu filho ficou dois dias internado no Pronto Socorro da Criança da Zona Oeste e outros dois dias no Instituto de Saúde da Criança do Amazonas”, disse.

A aposentada Maria Ineide, 68, passa por situação ainda pior. A água cobriu o assoalho da casa dela, na rua 12 e levou parte da madeira que forma o piso e as paredes do banheiro. Ela sofre de água no pulmão e tem coração grande. Passa o dia com os pés dentro d’água e disse não recordar a última vez que não sentiu febre.

“As agentes de saúde sumiram. Não aparecem nem para deixar o remédio que controla minha pressão. Faço comida e tudo dentro de casa com os pés molhados e a umidade não me deixa ficar boa de saúde”, descreveu.

Insatisfeitos com a administração pública

Elias Gomes, 30, é carpinteiro e mora com a esposa e quatro filhos também na rua 12. “Desde 2001 passou a alagar todo ano, mas quando eu comprei esse terreno, não fazia ideia de que passaríamos por isso”, contou.

Ele desmontou as paredes interna da casa onde mora e com a madeira fez maromba, cobriu praticamente todo o piso da casa. Elias e todos os moradores entrevistados reclamaram da qualidade do ‘kit madeira’ doado pela prefeitura de Iranduba.

“Duas tábuas, duas pernamancas e um ripão. O que eu faço com isso? Sem falar que a madeira não tem nenhuma qualidade, quebra fácil”, disse.

Foi pela falta de qualidade do material que moradores realizaram um protesto, no dia 11 de junho. Eles fecharam a rodovia Manoel Urbano, que dá acesso a ponte sobre o Rio Negro, e a polícia militar utilizou balas de borrachas e bombas de gás lacrimogênio para conter o protesto. “Eu estive lá protestando porque estamos precisando”, disse Elias.

A mãe da universitária Pâmela Andrezza, 20, foi atingida com um tiro de bala de borracha na perna esquerda durante o protesto. “Nós não recebemos o kit”, contou Pâmela, moradora da rua 11.

A casa dela foi invadida pela água. Há maromba apenas em dois cômodos e no caminho até a terra firme não há pontes de acesso. Pâmela sai de casa de bermuda com água até as pernas e no meio do caminho veste uma calça para ir a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), em Manaus. “Não é fácil, mas eu tenho força de vontade”, disse a universitária.

Prefeitura promete mutirão

A reportagem esteve na sede no município para entrevistar o prefeito, Xinaik Medeiros, mas ele não pode atender porque estava entregando equipamentos para agentes de saúde. O secretário de comunicação do município, Heliandre Dantas, também não atendeu as ligações.

Por telefone, o responsável pelas ações de defesa civil no município, Renner Cruz, prometeu, sem informar data,  que já está previsto um grande mutirão de serviços para a área do Cacau Pirêra, e rebateu dizendo que o material do kit madeira é formado seis tábuas, dois ripões e duas pernamancas. Disse ainda que a prefeitura fez pontes nas ruas da região.

 

Por Cleidimar Pedroso Equipe EM TEMPO

 

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