Cultura

Mesmo sem faturar prêmio no Festival de Berlim, Brasil tem o que comemorar, por agradar público e crítica especializada

o reconhecimento é estímulo contínuo para novas produções - foto: divulgação

o reconhecimento é estímulo contínuo para novas produções – foto: divulgação

Mesmo sem faturar prêmios na mostra em que concorria no recente Festival de Berlim, na Alemanha, o Brasil tem o que comemorar, afinal estar entre alguns dos filmes que de alguma forma agradaram o público e a crítica especializada da Europa já é fato a ser considerado uma sinalização da qualidade do produto tupiniquim.

Para o diretor caboclo de cinema, Sérgio Andrade, que assina direção, roteiro e produção de “Antes o tempo não acabava” (que concorreu à mostra Panorama no evento alemão), o reconhecimento é estímulo contínuo para novas produções.

O filme amazonense está na lista, agora, da competição de ficção do festival de cinema de Toulouse (França), como único representante brasileiro. ‘Antes o tempo não acabava’ – que conta a história de um jovem indígena que abandona sua comunidade para viver sozinho no centro da cidade, onde experimenta novos sentimentos e enfrenta outros desafios – tem patrocínio da Petrobras, investimento do Fundo Setorial do Audiovisual (Ancine, BRDE) e apoio da Secretaria de Cultura do Amazonas (SEC), do Fundo Ibermedia e do World Cinema Fund da Berlinale.

EM TEMPO – Qual a singularidade em participar de uma mostra dentro do Festival de Berlim?

Sérgio Andrade – A mostra “Panorama” do Festival de Berlim, apesar do nome indicar uma paralela com filmes já requentados, não é nada disso, é uma das mais cobiçadas por filmes autorais e libertários, é uma mostra com grande importância e renome do meio cinematográfico. Achamos que fizemos um filme que ficaria muito bem nela e miramos esse objetivo. Em junho de 2015, fomos contemplados no “World Cinema Fund da Berlinale”, aí nos sentimos ainda mais animados, e deu certo, “Antes o Tempo Não Acabava” caiu no gosto dos curadores alemães.

EM TEMPO – Falando em panorama, o que se pode dizer sobre como o mercado estrangeiro e até mesmo a imprensa internacional, bem como o público, encara sua produção?

SA – Sem nenhuma suspeita por ser diretor, mas posso assegurar que a energia do público nas quatro exibições principais foi a melhor possível. Salas lotadas, debates intensos ao final, muitos aplausos, Anderson Tikuna ovacionado. Não se trata de um festival disposto a consolar nada, portanto foi autêntica essa recepção calorosa. Na principal delas, que aconteceu na belíssima e imensa sala ZooPalast, foi emocionante. A crítica também se mostrou bastante positiva e entusiasmada com um filme que fala de identidade e sexualidade em plena Manaus indígena.

EM TEMPO – Quem foi com você participar do festival?

SA – “Antes o Tempo Não Acabava” participou da Berlinale comigo e com Fábio Baldo, que também dirige o filme, com os atores Anderson Tikuna (protagonista), Begê Muniz e Rita Carelli e os produtores Ana Alice de Morais e Paulo de Carvalho – as passagens e hospedagens foram um oferecimento da ANCINE – Agência Nacional de Cinema, da SEC e do próprio Festival de Berlim.

EM TEMPO – Que experiência e aprendizado você e sua equipe trazem na bagagem dessa vez?

SA – O mais incrível foi levar a um festival tão grandioso e importante uma ficção sobre a vida de um indígena urbano em Manaus. As pessoas não conheciam aquilo, não tinham ideia do que é uma grande cidade no “coração da floresta”, o filme traz isso e por isso surpreende. Voltamos da Berlinale com uma missão intensificada, de sermos portadores de uma estética diferente, de um filme com quatro línguas indígenas e que é “estrangeiro” até para o próprio Brasil.

EM TEMPO – Houve algum episódio que você julgue inusitado para contar?

SA – Anderson Tikuna, um amazonense indígena, ticuna, despertou curiosidade e atenção no festival, sempre muito aplaudido e assediado pelo público e pela imprensa. Anderson era sempre tratado com reverência, gostou de tudo, apesar da roda-viva de entrevistas e sessões, a única coisa que reclamava era que não tinha neve (este ano Berlim não apresentou as já tradicionais nevascas que ocorrem sempre durante a Berlinale).

EM TEMPO – Que podemos esperar sobre novos festivais com esse filme?

SA – Com certeza, é um filme de festivais, pois ali encontra o ambiente da discussão e da cinefilia. É um filme que se lança com esse dispositivo autoral e deve seguir para outros festivais. Temos uma conceituada “sales agent” internacional, a UDI (Urban Distribuition International), e eles cuidam disso muito bem. Já agora em março estaremos na competição oficial do Festival de Toulouse – Cinelatino, na França.

EM TEMPO – O que podemos esperar sobre suas novas produções?

SA – Meu novo roteiro – “A Terra Negra dos Kawa” acabou de ser contemplado no Edital de Longas de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. É a segunda vez que o Amazonas é selecionado, e a primeira foi com o nosso “A Floresta de Jonathas” (2012). Estamos muito contentes e isso significa mais trabalho e fibra para o cinema no Amazonas. É uma história de ficção também, que beira a ficção científica e que fala de uma terra poderosa e curativa, cultivada por uma família de nativos que tem um sítio próximo à Manaus. É também uma metáfora para a questão da propriedade de terra pelos índios. Devemos filmar em 2017 e agora partimos para tentar coprodução internacional. O projeto deve participar do fórum “Cinema en Development” (cinema em desenvolvimento), agora em março na França.

EM TEMPO – Hoje é dia de uma grande premiação cinematográfica. Quais seus principais palpites para levar o Oscar?

SA – Melhor filme, “Mad Max: Estrada da Fúria”, porque aposto num filme mais de ação e espetáculo. Gostei de “O Regresso”, mas Iñarritu já está muito inflado. Melhor Diretor, George Miller (“Mad Max”). Ator, Leonardo DiCaprio (“O regressso”). Ou ele ganha agora – apesar de não ser seu melhor papel – ou ganha quando for velhinho um troféu daqueles honorários. Atriz, Cate Blanchett é devastadora, mas aposto na Charlote Rampling. Devo também confessar que foi impossível ver todos. Então, aqui passa muito a minha intuição.

Por Gustav Cervinka

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