Economia

Mercado turístico local critica a falta de investimentos para desenvolver o setor no Amazonas

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A ‘Festa dos Botos’ é, até hoje, utilizada como atração turística no Amazonas – foto: Ricardo Oliveira

O Amazonas vende, há mais de 30 anos, os mesmos produtos turísticos. Sem planejamento efetivo para o setor entre o poder público e a iniciativa privada, o Estado segue com a sua economia refém dos altos e baixos do Polo Industrial de Manaus (PIM), sem aproveitar o potencial que o setor tem para engrossar a receita como principal matriz econômica.

A avaliação é de especialistas, que apontam apenas investimentos pontuais e a falta de identidade turística.

Nesse hiato que pode ser ainda maior – se levar em consideração que empresas de turismo como a Selva Tur começaram a empreender no Estado há quase 50 anos -, o poder público nunca formulou um plano turístico com marketing, que consolidasse o setor como política pública para desenvolvimento socioeconômico, segundo a turismóloga Márcia Raquel Cavalcante Guimarães, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). “Falta enxergarem o turismo como política pública, com orçamento e um plano de marketing”, diz.

Também presidente do Conselho da Confederação Nacional de Turismo do Amazonas (ConCNTur-AM), Márcia Raquel observa que, na contramão do cenário turístico amazonense, o Pará é um caso de sucesso na Região Norte, porque investiu em planejamento em médio e longo prazo. “Aqui (no Amazonas), quando pensam em turismo, querem apenas a curto prazo. São investimentos mais por questões políticas, como foi para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas. O Pará tem uma identidade turística que o Amazonas não tem”, critica.

Enquanto o governo do Amazonas e as prefeituras das cidades amazonense com potencial turístico não se planejam e realizam investimentos em conjunto, para se livrar da mesmice, e fortalecer o setor, o Pará se prepara para este ano inaugurar o “Complexo Amazonário”, que é um grande aquário voltado para as espécies amazônicas. “O Amazonas está com os mesmos produtos há mais de 30 anos, que são o encontro das águas, a visita a casa do caboclo, a focagem de jacaré e a visita ao teatro Amazonas”, enumera.

Para a turismóloga, que ainda representa as instituições de ensino superior no Conselho Municipal de Turismo (Contur), o poder público poderia trabalhar novos produtos como o próprio parque fabril de Manaus, a partir da sua história, das suas fábricas como as do polo de duas rodas, que só perde em volume para o Japão, e a concepção arquitetônica de Severiano Mário Porto. “O polo de quatro rodas do ABC paulista empreende como produto turístico. Aqui temos grandes marcas de duas rodas como a Harley Davidson”, diz.

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Empresários do setor apontam que hotéis de selva se encontram em situação precária pela falta de turistas – foto: Ricardo Oliveira

Recepção

Outra grande falha amazonense para o ambiente turístico, segundo Márcia Raquel é o cuidado com a recepção da cidade. “O nosso centro histórico está abandonado. Os moradores de rua estão na frente dos hotéis e nas praças, o que impacta diretamente na imagem e na venda do destino. Enquanto a iniciativa pública vai para um lado, a privada vai para outro. Hoje, ninguém consegue planejar, pois poder o público não ouve os empresários”, afirma.

Do pouco que ainda se faz pelo turismo por parte do governo, a professora aponta investimentos na participação em feiras internacionais.

No entanto, ela avalia que não adianta nada focar nessa estratégia, se o Amazonas não tem uma marca turística e produtos novos, como o próprio aquário, cuja ideia já se fala há anos, mas ninguém faz. “O Amazonas não é somente floresta. Ele é também floresta, mas como grande chamariz que deve envolver a cultura”, diz.

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Startup busca fortalecer, em Manaus e na região metropolitana, o mercado de turismo de aventura – foto: divulgação

Investimentos futuros

O secretário de Estado do Turismo do Pará, Adenauer Góes, afirma que o sucesso do turismo paraense se resume a palavra “planejamento”.

Ele conta que o Estado começou a pensar o turismo como matriz econômica em 1995, mas teve o seu primeiro plano efetivo do setor em 2001, por meio do qual nasceu uma marca e o slogan “Pará, a obra prima da Amazônia”. Daquele tempo para os dias de hoje, ele diz que o turismo paraense saiu do 0% no Produto Interno Bruto (PIB) para algo em torno dos 4,5%.

O principal passo para fazer do turismo um eixo de desenvolvimento, segundo Góes, foram os investimentos em infraestrutura turística e o entendimento do Estado sobre o setor como atividade econômica.

“Os diversos setores da administração pública passaram a interagir. Houve uma ação política de definição do turismo com um dos eixos de crescimento do Estado do Pará, o que se espraiou para gestões municipais, o que deu segurança e credibilidade ao empresariado para poder investir”, conta.

Para o secretário, o envolvimento de todos os atores paraenses foi essencial para a articulação dos trabalhos, principalmente o pacto com o empresariado. “Se não tiver empresário não se tem negócio em nenhuma atividade econômica, e no turismo não é diferente. É preciso que o empresário tenha efetivamente confiança e a segurança de que ele pode investir e que terá o retorno esperado”, avalia.

Entre os passos que mais impactaram o turismo paraense, segundo Góes, foi o projeto de recuperação e valorização da orla de Belém, que se levou para as cidades polos do setor no Estado. “Na Amazônia, tradicionalmente, as ocupações nas cidades foram feitas de costas para o rio. Mas, depois de certo tempo começaram a entender que foi um equívoco e percebemos que a orla é um receptivo importante para o turismo”, diz.

Na avalição do secretário, em função do processo de planejamento, Belém é hoje uma cidade que avançou a passos mais largos do que naturalmente não faria, principalmente no sentido de valorização do seu caldo cultural. “Ganhamos na cultura da gastronomia, da música, da dança, do artesanato, do patrimônio arquitetônico da cidade. As pessoas estão valorizando e se organizando muito mais em relações a esses bens turísticos”, enfatiza.

Por Emerson Quaresma

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