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Memórias

Tatiana Schor Professora da Universidade Federal do Amazonas, Departamento de Geografia

Tatiana Schor
Professora da Universidade Federal do Amazonas, Departamento de Geografia


Nossa vida no final das contas é uma construção de memórias. Das pequenas e grandes lembranças que quando se juntam formam um conjunto, as vezes coeso outras nem tanto, que nos tornam humanos e nos dão caráter.

O conjunto dessas lembranças conformam a memória. Por isso, devemos cuidar de construir, em nós e nos nossos próximos, boas lembranças e cuidar delas. Sei dos muitos sentidos da Páscoa para os cristãos, mas como sou de outra tradição cultural para mim não conforma memórias. Na cultura familiar da qual venho, judeus progressistas do leste europeu, este é o período do Pessach, que normalmente as pessoas chamam erroneamente de Páscoa judaica.

O Pessach, de acordo com que meus avós me ensinaram, tem um significado muito especial. É o momento no qual o povo judeu deixa de ser escravo. É a passagem do povo escravo para um povo que nunca mais será escravo nem aceitará a escravidão. É uma profunda transformação na forma de entendimento individual e coletiva, na moral, nos juízos e na compreensão do mundo e da relação entre os homens.

Minha lembrança é de minha avó Tuba, profundamente comunista, não religiosa, de nos dizer que dentre as festas judaicas esta era a que ela mais gostava, pois enquanto houvesse pessoas escravas, trabalhadores mal remunerados, crianças abandonadas, guerras e violência, o Pessach nunca estaria completo. A transição para uma sociedade livre só é possível quando todos forem livres. Não preciso dizer que ela era antissionista (contra o Estado de Israel) e conversava longamente conosco, mesmo na tenra idade, sobre a importância de lutarmos por um mundo mais justo.

Dessas lembranças, fruto de vários diálogos, construí a memória de que um mundo melhor é possível e que devemos sempre buscar, em todos nossos atos grandiosos ou cotidianos, agir nessa direção. Leio os jornais, nacionais e internacionais, vejo os noticiários, e me assombra a direção contrária que estamos vivendo.

Os deslocamentos humanos atravessando mares (que não estão abertos), fugindo das mais diversas formas de violência e escravidão, buscando em países distantes e culturalmente diferentes a liberdade é o fato mais gritante que nos mostra que ainda não terminamos a passagem. A violência contra as mulheres, crianças, transgêneros e todos que são diferentes ao que o status quo quer considerar como normalidade é a escravidão moderna. Um mundo desigual na sua essência não cumpre com os deveres da nossa espécie e não tem ovo de páscoa que possa adoçar esta realidade trágica.

Das muitas lembras desta data lembro também dos jantares de Pessach na casa de minha tia Léa, onde cada prato tem um significado. Na abundância, lembramos da escassez, e do amargor da raiz forte dos tempos difíceis que a humanidade passou e passará. Tia Léa, hoje com Alzheimer, já não tem mais lembranças. Tenho comigo as delas. Lembranças que se transformaram na pessoa que tento ser hoje. De ser dura e doce. Honesta e sincera ao ponto do inconveniente e a eterna lembrança de que não devemos nos esquecer do amargor das vidas dilaceradas pelas guerras, apesar de nunca ter passado uma.

Espero que minha filha, que hoje completa 9 anos, crie memórias boas e universais, que queira um mundo melhor para todos e que busque nas suas formas futuras de viver a liberdade. Só posso presenteá-la com boas lembranças de passagens, de Pessach, e torcer para que ela junte uma memória, como diria minha avó, progressista. Porque o mundo hoje beira ao fascismo.

tatiana.schor@gmail.com

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