Economia

Manutenção em poste de alta tensão, limpando fachadas, eles trabalham nas alturas

Quase todas as atividades apresentam algum grau de risco de acidente, mas capacitação constante melhora desempenho- foto: Ione Moreno

Quase todas as atividades apresentam algum grau de risco de acidente, mas capacitação constante melhora desempenho- foto: Ione Moreno

Eles trabalham nas alturas, mas o salário quase sempre está lá embaixo. Essa é a realidade da maioria dos profissionais que trabalha em plataformas móveis, pendurados por cordas, em fachadas de altos edifícios ou mesmo amarrados por equipamentos de segurança em postes de energia elétrica de alta tensão.

O salário desses especialistas varia em média de R$ 800 a R$ 1.300 por mês. Sobre esse valor é acrescido o pagamento 30% de periculosidade e até 40% de insalubridade, quando são submetidos a agentes nocivos à saúde.

O alpinista industrial Jackson Santana Silva, 20, ganha em torno de R$ 900 na carteira de trabalho e mais 30% relativo à periculosidade para trabalhar fazendo limpeza de revestimento e fachadas em geral de grandes prédios. Apesar de estar há dois meses na profissão, ele destaca que há mais de um ano trabalha nas alturas, e tão tranquilamente quanto se estivesse no chão. “Comecei a trabalhar nas alturas quando fiz um curso de bombeiro civil, depois conheci o alpinismo e migrei”, comenta.

Ludiene Batista Santarém, 33, está começando no alpinismo industrial. Apesar do salário não ser tão alto quanto a altura em que os profissionais dessa área trabalham, ela conta que está gostando da nova profissão. “Estou em treinamento ainda, mas já perdi o medo. E é legal porque as pessoas, por eu ser mulher, acabam comentando e me admirando como profissional por estar em uma profissão que é tradicionalmente masculina”, revela.

O eletricista Raimundo Silva e Silva, 41, há oito anos presta serviços terceirizados para a concessionária de energia que atende a capital.
Segundo ele, o salário na carteira é de R$ 1.300, mas tem ainda os benefícios da periculosidade e insalubridade por se tratar de uma profissão perigosa.

“Tem muita gente que pensa que nós ganhamos muito (dinheiro), mas não ganhamos. Mas tem algumas vantagens, principalmente quando viajamos”, conta.
Ele destaca que o mercado é concorrido e também aquecido em Manaus. Mas, quem deseja entrar nessa área precisa fazer diversos cursos, além de ficar em constante capacitação. Conforme Raimundo, nesse período nunca sofreu um acidente de trabalho. “O risco é contínuo, mas temos que estar sempre com cinto de segurança, capacete, luva e bota. Desta forma, o risco de acidente é mínimo”, salienta.

Tendência

Para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos, Seccional Amazonas (ABRH-AM), Roberto Chagas, quase todas as atividades não são seguras e o risco de acidente existe em todas. Porém, algumas são mais propensas. Ele conta que nessas, a legislação determina aposentadoria por menor tempo de trabalho ou um adicional sobre o salário. “A pessoa tem um diferencial de ganho por mês, agora ela precisa se conscientizar que não é de graça. A probabilidade de acidente com ela é maior. Tem que estar sempre atenta e alerta”, ressalta.

Roberto explica que nessas profissões a atualização e capacitação deve ser constante e a pessoa tem que conhecer muito bem o trabalho seguro. “Tem que ser reciclado, visto que tem muitos que trabalham anos na profissão e acabam se acostumando e quando relaxa acontece o acidente”, lembra.

Chagas destaca que hoje em dia, a maioria dos equipamentos já vem com um dispositivo de segurança que trava quando ocorre uma falha.
Ajustes às normas de segurança

O presidente da ABRH-AM, Roberto Chagas, diz que toda empresa precisa ter serviços especiais de segurança e medicina do trabalho para fazer análise de risco das atividades e estabelecer normas de segurança. Ele cita como exemplo quem trabalha com energia elétrica, que está em constante risco, mas conta com todo o equipamento necessário para garantir que não se exponha a acidente. “Os equipamentos que são desenvolvidos hoje conseguem anular o risco daquela atividade”, comenta.

Segundo Roberto, a empresa tem toda responsabilidade quanto à segurança do funcionário. Porém, a maior causa de acidente é devido à falta de atenção. “O que acontece é que nós temos muito relaxamento com as normas de segurança. Isso por parte do empregado pode dar demissão por justa causa. Ele pode ser punido quando se colocar em situação de risco onde não poderia haver”, aponta.

Chagas declara que as empresas são classificadas pelo número de empregados e de risco, sendo que cabe a elas mapear todas as atividades, encontrar as situações de riscos e corrigir as falhas. “Por meio da classificação a empresa verifica nas leis de saúde e segurança qual medida se encaixa em seu quadro e que tipo de equipamentos os empregados têm que usar quando estiverem fazendo as atividades”.

Para ele, entre os problemas mais comuns estão os empregados não atenderem as normas de segurança e algumas empresas não darem a devida atenção, nesse caso elas podem ser autuadas pelo Ministério ou Superintendência do Trabalho.
Ele faz um alerta para o fato de que hoje em dia um acidente causar efeitos muito grandes à empresa, as quais podem ser punidas pelo Ministério do Trabalho e também por outra área do direito, chamada de danos morais. Além disso, o impacto emocional do grupo de empregado é trágico, conforme Chagas.
“Há consequências tanto financeiras quanto emocionais que impactam diretamente na produtividade da empresa”, conclui.

Cursos garantem qualidade

A demanda de profissionais em busca de especialização nessa área é crescente, de acordo com a responsável pelas matrículas no Instituto da Construção (IC), Fernanda Nunes. Segundo ela, dentre todos os cursos ligados ao setor da construção civil a maior procura é por cursos de trabalho em altura e elétrica. “A demanda cresceu por conta do aumento das obras em Manaus”, avalia.

Fernanda aponta outro fator positivo para o crescimento da procura pelos cursos de profissões perigosas. Ela salienta que, as próprias empresas buscam capacitar ainda mais os funcionários tanto para oferecer um serviço de qualidade aos clientes quanto para proporcioná-los maior segurança no ambiente de trabalho.

“Ainda tem muito profissional que não faz curso por achar que sabe de tudo, mas hoje em dia as empresas procuram ter em seu quadro pessoas bem qualificadas”, observa.

O Instituto da Construção, situado na avenida João Valério, conjunto Vieiralves, Zona Centro-Sul, oferece cursos de mestre de obras, pintor de obras, oficial de manutenção predial, NR 10, NR 35, dentre outros. Os dois últimos – os mais procurados -, custam em torno de R$ 400 e R$ 230, respectivamente. “Temos um número alto de formandos por mês. Cada vez mais os profissionais buscam se destacar no mercado de sua atuação”, conclui Fernanda.

Por Silane Souza (equipe EM TEMPO)

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