Editorial

Mais uma lei que ‘não pegou’

Fala-se cada vez menos em transparência. Se existe lei que “não pega”, a da transparência foi uma das que não sensibilizaram o país. A transparência foi vendida na praça como um produto anticorrupção, antidesvio do dinheiro público, antienriquecimento ilícito e desvios similares. “Diz-me como gastas o que é meu e te direi quem és”. Pois sim.

A transparência ganhou notoriedade muito recentemente no discurso político e da administração pública. Como o contribuinte e o eleitor, duas qualidades da mesma persona, jamais conseguem provar que está sendo roubado, a política e a administração decidiram, numa inversão das regras jurídicas, demonstrar que não roubam, não dão destino impróprio (em geral os próprios bolsos) às verbas que lhes caem diretamente nas mãos. Pois sim.

Com esse recurso fantástico que é a internet, a transparência tornou-se uma gripe suína endêmica. Todas as provas da inocência estariam on-line. E se está na internet, é verdade. A internet é a sagrada escritura do deus do nosso tempo, o dinheiro, e de seus quadros sacerdotais, os políticos e os administradores públicos; o resto é heresia e…. comunismo, aquele que matou e congelou para a posteridade, na Sibéria e nos campos de arroz do Camboja, milhões de amantes da democracia; conspirou para a falência do sistema financeiro dos Estados Unidos e largou o resto do mundo ao deus-dará; provocou uma baixa falimentar no consumismo voraz da classe média e aumentou para um bilhão o número de famintos no mundo etc.; assim como transparece com fartura na história universal que os noticiários muito bem-pagos lecionam todos os dias.

A transparência virou mantra. Integrou-se ao cotidiano. Ninguém lhe dá mais a menor importância. Que descanse em paz até a próxima temporada, que começa em primeiro de janeiro.

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

To Top