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Mais respeito com a história

Margarida Campos -  Enfermeira sanitarista, mestre em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia

Margarida Campos –
Enfermeira sanitarista, mestre em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia

O caso da Santa Casa de Manaus dá samba, mas, infelizmente do crioulo doido. Desde sua desativação em 2004, essa situação é alvo de variadas iniciativas e propostas de superação que ora avançam em direção ao que a sociedade pensa, deseja e quer (a recuperação e reabertura do hospital nos moldes anteriores), ora se reordenam em direção a projetos contraditórios, imprecisos, inconsistentes, remetendo a um confronto de forças antagônicas entre interesses particulares e o interesse coletivo.

O mais recente é o resultado do levantamento feito por técnicos da prefeitura e do Estado, divulgado neste jornal, “afirmando que o prédio está inviável para abrigar uma unidade de saúde”. E mais: consideraram-no impróprio para um hospital. Por quê? Faltou dizer, é preciso explicar. E não vale a velha e batida desculpa de que está tudo destruído, não há mais nada lá, as instalações são insuficientes e inadequadas para a realidade atual da cidade, o custo da reforma é alto, não há recursos etc.

Essa conversa não convence, até porque não há nada que a engenharia e a arquitetura modernas não recuperem, adaptem ou reinventem. Dinheiro também não é problema, basta reduzir o gasto público com a vassalagem, o marketing e com o circo, ou seja, fazer distribuição e aplicação democrática dos recursos, afinal a crise não pode penalizar apenas o coletivo.

Além disso, quem permitiu, com sua contumaz omissão, a deterioração agônica da Santa Casa, patrimônio de enorme valor cultural e de função social de fundamental importância para a coletividade, foi a estrutura de poder local (Executivo, Legislativo e Judiciário), cabe ela, portanto, recuperá-la e devolvê-la ao povo, que a mantém com o pagamento de seus impostos sem que lhe prestem conta de seus (des) serviços.

Quando a Santa Casa foi inaugurada em 1880 a assistência hospitalar de caráter geral no âmbito estadual inexistia. Foi esta instituição e a Beneficente Portuguesa que assumiram a responsabilidade pelo atendimento da demanda, sendo que a Beneficente, de acordo com seu estatuto, fazia distinção de clientela. A Santa Casa, então, concentrou o grosso do atendimento por décadas, recebendo dotação orçamentária do governo, paga com atraso considerável, o que contribuiu para uma sobrevivência de perenes dificuldades.

Os problemas financeiros, contudo, não impediram que prestasse serviço à sociedade amazonense preenchendo a lacuna do Estado na assistência hospitalar devida a população, especialmente a indigente que não podia recorrer à clínica privada, como era comum nas camadas de maior poder aquisitivo, pois não havia na época a previdência social.

Assim, mesmo sendo um hospital geral, cobriu a ausência de hospitais especializados. Tanto que, mesmo sem acomodações adequadas, serviu à internação de crianças até por volta de 1922, quando foi fundada a “Casa Dr. Fajardo”. Recebeu casos de doenças transmissíveis, sobretudo por ocasião de surtos epidêmicos e prestou assistência aos doentes mentais por muitos anos. A proteção dispensada a tais grupos explica-se pela herança caricativa, comum entre as religiosas que dirigiam as Santas Casas. Essa concepção beneficente motivou ainda o provedor a providenciar assistência aos tuberculosos, que aumentavam, sem existir qualquer local para internação como era modelo nessa época.

Como assim, a Santa Casa é imprópria para hospital? Com essa fantástica história, que continuaremos a contar, fala sério!

1 Comment

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  1. marco aurelio souza de lima

    18 de agosto de 2015 at 14:37

    Concordo em número, gênero e grau, com a historia da Santa Casa, que também fui servido por ela. Contudo há de se explicar e explicar com E, os inúmeros escândalos e embrolhos por que passou esta instituição, até cair no descredito popular. Certo é, que no atual momento por que passa o Pais, nos vermos alijado de uma instituição que pode contribuir muito para a saude publica local. Espero que os que detêm a autonomia legal da entidade possa também deixar as armas voltar a fazer o que a entidade por séculos vem fazendo, o bem a cidade de Manaus e o estado do Amazonas.

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