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Mães que transformaram a dor em luta

Grupo Vítimas Unidas em visita a presidente do STF, ministra Carmen Lúcia – Fotos: Divulgação

Elas são mães, brasileiras de estados diferentes e tem algo em comum: transformaram suas dores em luta por justiça. Christiane deseja ver preso o culpado pela morte de seu filho Gilmar Rafael. Sônia viu parar na cadeia, por duas vezes, o principal acusado pela morte da filha, porém não teve o corpo de sua Elisa para velar. Por um erro médico, Maria do Carmo teve que se despedir da filha Vanessa. Rosane quer apenas provar a inocência de Thiago e tirar o filho do maior complexo penitenciário do país. Todas, mulheres que provavelmente nunca iam se encontrar, mas quis o destino que a tragédia que as atingiu, também as unisse.

Maria do Carmo perdeu a filha por erro médico

Maria do Carmo dos Santos, de 54 anos, conta que perdeu sua filha Vanessa dos Santos Bastos aos 4 anos, por culpa de um erro médico. Jovem, sem experiência e força para lutar contra o que considera ser um corporativismo médico, se formou em psicologia e doutorou-se em Educação para tentar entender a mente humana. Hoje é presidente do “Grupo Vítimas Unidas” (VU) com mais de 110 mil pessoas empenhadas no combate às mais variadas injustiças sociais.

“E o que era para ser um local de sonhos das futuras mães, foi palco do horror por parte deste criminoso”, lamenta Maria acrescentando que, até hoje, ela nunca viu justiça para o caso de sua minha filha, mas segue empenhada para que outras mães que passam por problemas parecidos, consigam ver os culpados condenados.

Tragédia anunciada na infância
Em junho de 2010, Sônia Fátima Silva Moura, 51 anos, perdeu a filha Eliza Samúdio, então com 25 anos, brutalmente assassinada a mando do ex-goleiro do Flamengo, Bruno Fernandes. Ele foi condenado há 22 anos e 6 meses de prisão por homicídio. O corpo de Eliza nunca foi encontrado.

A dona de casa assumiu a criação do neto e faz salgadinhos para ajudar a mantê-lo. O menino está com 7 anos e,

Sonia busca forças no neto Bruninho

segundo ela, nunca recebeu um centavo do pai. “É muito difícil ser mãe e avó. Tenho cuidado redobrado com o Bruninho, pois ele precisa ser protegido”.

Ela conta que não tem um dia que não pense na filha e lembra, com revolta, que quando estava grávida de Eliza, o pai (senhor Samúdio – atualmente foragido da justiça acusado de pedofilia), a ameaçava dizendo que iria esquarteja-la quando ela nascesse. “No final quem a matou e esquartejou foi justamente o homem que deveria protege-la, pois ela tinha um filho dele. Foi uma maldade muito grande que fizeram com ela. Sua vida foi tirada e junto a possibilidade de viver seu maior sonho que era ser mãe. E nestes anos, todos os dias são difíceis e os das mães nem se fala. As vezes tenho vontade de sumir, mas penso no quanto meu neto, meu filho e marido precisam de mim e eu deles”, disse.

“Não espere doer na própria carne para se importar”
A frase é da deputada federal do Paraná, Christiane Yared (PTN), de 57 anos, que perdeu o filho Gilmar Rafael, 26, em um acidente de trânsito provocado pelo ex-deputado estadual, Fernando Ribas Carli Filho. Ele dirigia embriagado segundo laudo do Instituto Médico-Legal (IML) de Curitiba e a 190km/h quando atropelou Gilmar. Na última quinta- feira (11), o julgamento de Carli Filho foi retirado de pauta no Supremo Tribunal Federal (STF) e sua defesa tenta impedir que ele vá a júri popular por homicídio doloso no acidente ocorrido em maio de 2009, que vitimou também o jovem Carlos Murilo Souza, de 20 anos.

Depois da morte do filho, Christiane se tornou deputada federal e ainda luta para condenar o assassino, o ex-deputado federal Fernando Ribas Carli Filho

Eleita deputada federal mais votada no último pleito, Yared fez da conscientização e prudência no trânsito, uma de suas bandeiras de luta.“Não deixe para mudar de comportamento no trânsito apenas quando a dor vier ensinar essa mudança. O aprendizado da dor é muito difícil. É melhor aprender pelo respeito mútuo. Precisamos nos educar para a responsabilidade e a solidariedade”, defende.

“Hoje a minha luta é por um país melhor. Eu apenas entendi que precisava lutar pelos outros porque o filho morto eu não posso trazer de volta. Meu filho descansa, graças a Deus e um dia irei reencontrá-lo. Mas a justiça é para os vivos e é por este motivo, por esta causa que eu luto, que eu grito e estou deputada federal para poder lutar por leis mais eficazes”, justifica.

Inocente no Bangu 10

No Rio de Janeiro, a professora Rosane Brum, de 52 anos, e sua família, chora há três anos o injusto equívoco que levou seu filho Thiago, na época com 23 anos, à Cadeia Pública José Frederico Marques (Bangu 10).

Rosane Brum luta para tirar o filho da cadeia, mas ele continua detido sem previsão de soltura

Thiago é acusado de participar de um assalto, mas um vídeo analisado por três dos principais peritos do país, contrariam todas as acusações.

“O vídeo mostra claramente que o assaltante não é meu filho. Até a perícia da polícia não encontrou nenhuma digital. Temos filmagem dele na casa da namorada lavando o carro no portão da casa. Tem a hora que ele chegou. Foi injustamente reconhecido por quatro testemunhas através de foto no Facebook. Mesmo com todas as provas contrárias, tudo comprovado, foi condenado por dez anos. Isso não dá para aceitar. Não vou cansar de lutar para provar que meu filho é inocente”, declarou a mãe.

Ela conta que o filho, mecânico de avião, tinha acabado de passar em um concurso para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e que ele sempre foi estudioso. Havia passado numa prova para uma empresa de aeronaves para começar a trabalhar, exatamente na semana em que ocorreu o assalto.

“Ai todos os sonhos dele caíram por agua abaixo. Com isso ele está preso há dois anos e sete meses. O que falta para ele ser solto? Falta a justiça ser feita. O julgamento ser feito com justiça. O que no nosso país a gente não vê. O que se vê é inocente com o Thiago preso. E as pessoas que deveriam estar presas eles estão soltando. Estou cada vez mais decepcionada com nosso país. Foi o terceiro aniversário dele que completou dia 8 de maio, 26 anos. Terceiro Natal, terceiro dia das mães. Sou uma pessoa muito revoltada”.

Rosane conta que sua vida parou. Ela é professora e que, por conta do que ocorreu, passou a se tratar de depressão. Depois teve que se aposentar, pois já tinha tempo de serviço, apesar de não querer parar.

No Grupo Vítimas Unidas, a dor de Rosane é compartilhada com e por Maria do Carmo, Sônia, Christiane, e todos os outros. Cada um com uma história de vida, de perda. Todos sofrendo com a justiça que julgam lenta, ineficiente e sem efetividade. Mas, a amizade lhes rendeu força, alento e laços afetivos como é o caso de Maria do Carmo que recebeu o convite de Sônia para ser a madrinha de Bruninho, criança que conheceu através de uma grande dor.

Ed Blair

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