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Língua mãe e língua madrasta

Escritor e empresário

Luiz Lauschner
Escritor
e empresário

Meu professor de português do ginásio já costumava dizer: “Ninguém consegue escrever por muito tempo sem cometer erros de escrita.” Os nuances da língua portuguesa, e por extensão da maioria das outras línguas faladas no planeta, são muitos e, por vezes, cometemos erros não propositais. Piores são os erros quando queremos incursionar por outras línguas. Mais ou menos na mesma época do meu ginásio, o cantor alemão Freddy Quinn lançava para o mundo a música “La Guitarra Brasiliana” homenageando o violão brasileiro. A música fez sucesso internacional embora transportasse a matriz da nossa língua para a Espanha e não para Portugal. Aliás, o português é uma das poucas línguas que faz uma clara distinção entre o violão acústico e a guitarra elétrica.

Há alguns anos os passageiros do aeroporto de Manaus, que entendessem um pouco de inglês ficavam estarrecidos com uma lanchonete que oferecia um tal de “Flyburger” talvez querendo dizer Flyingburger. Num lugar onde passam especialistas na língua de Shakespeare é uma temeridade oferecer Hambúrguer de mosca. Embora as gafes sejam naturais e toleráveis em quem precisa falar uma língua estrangeira, a escrita sempre dá tempo para consultas e revisões. Por isso, na linguagem do computador, a troca do sentido de ajustar por justificar não se justifica (redundância proposital) de maneira alguma. O pior é que se trata de um erro que irá criar um neologismo.

No mundo globalizado, os estrangeirismos estão presentes em todas as línguas. A inglesa, que pretende ser anglo saxônica, tem também raízes latinas e gregas num grande número de palavras. Por não ter artigo que varia por gênero, a mesclagem se torna ainda mais simples. Até o alemão, mais reticente em adotar estrangeirismos, há muito já assumiu a abreviação TV no lugar de VernSehn, cada vez mais em desuso para o aparelho tão moderno. Na cozinha é chique manter as palavras francesas e adaptá-las à língua do lugar sem mudar muito. Não estranhamos muito quando assistimos noticiário e vemos jargões não traduzidos sendo empregados na fala e na escrita com a maior naturalidade. Software, hardware, spread, commodities e outras palavras estão tão enraizadas que nem o computador dá sinal de erro.

No Brasil há influência de todos os matizes. Onde há concentração de pessoas de outros países, criou-se uma linguagem própria que adapta palavras do país de origem ao português e vice-versa. Essa linguagem que não costuma ser escrita, só é inteligível na comunidade. Enquanto gramáticos tentam manter a pureza da língua, linguistas trabalham no sentido de incorporar. Para eles, o mais importante é saber se as expressões são usadas e se as pessoas se fazem entender por elas.

Contudo, é muito bom constatar que as pessoas ainda se entendem nessa Babel moderna.

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