Opinião

Jung Mo Sung

 
Uma das afirmações sobre a igreja que mais gosto é a que diz: a igreja é “santa e pecadora”. Não porque eu tenha um gosto em apontar os pecados da Igreja, mas porque é uma afirmação teológica profundamente realista com “validade” também em análises sociais das instituições e sociedades.
Uma das tentações de todas as instituições ou sistemas sociais que adquirem um grande poder na sociedade é a de se considerar imune a erros ou a questionamentos e críticas.
 
Especialmente quando essa instituição se considera como representante da vontade divina ou das leis da história (como foi ou é o caso de alguns partidos comunistas que chegaram e/ou ainda se mantém no poder e também dos neoliberais defensores do livre mercado).
As igrejas cristãs também não estão imunes a essa tentação; especialmente porque, como igrejas, falam ou tem a pretensão de falar em nome de Deus ou em nome da revelação. Por isso, a contínua recordação da afirmação de que a Igreja é “santa e pecadora” é fundamental para vencermos essa tentação.
 
Tentação essa, que como todas as outras, nunca desaparecem completamente nas nossas vidas.
Dizer que a igreja é “santa e pecadora” é reconhecermos a ambiguidade da condição humana e, por isso, de todas as instituições humanas.
 
A afirmação de que a greja é “santa” é a confissão de fé que vemos nas comunidades que formam a Igreja a presença do Espírito de Deus nos animando no Caminho. Aqui é importante ressaltar que essa confissão de fé afirma que a Igreja é “santa” e não sagrada. Algo que é sagrado é ou deve ser intocável, imutável e separado da vida cotidiana, vista como o campo do profano.
 
O cristianismo não é uma religião firmada na afirmação do sagrado que se separa e se distingue do profano, mas sim na fé de que Deus, que é santo, se esvaziou da sua condição divina e se fez humano (cf. Fil 2,6), habitou e caminhou entre nós para que todas as pessoas pudessem viver com dignidade e alegria.
 
Nesse sentido, a santidade que nós podemos viver é a aceitação do amor gratuito e a misericórdia de Deus e testemunhar esse amor entre as pessoas, especialmente as que mais sofrem.
Porque colocamos a “fundação” da nossa Igreja na presença misericordiosa de Deus entre nós, é que nós sabemos e reconhecemos que somos pecadores. É a misericórdia e a santidade de Deus que nos revela a nossa condição de pecado e nos anima a vivermos a fé que, mesmo pecadores, somos amados por Deus.
Quem vê a igreja, com seus membros e suas instituições, como algo sagrado não admite mudança naquelas regras e leis consideradas imutáveis, porque sagradas.
 
Um dos exemplos de leis intocáveis seria a exclusividade da ordenação sacerdotal dos homens. Porém, quem confessa que Igreja é “santa e pecadora” sabe que a santidade não reside na imutabilidade ou na intocabilidade da instituição ou das leis, mas no amor gratuito e misericordioso de Deus.
 
Sabe que uma das características do amor é exatamente a de criar uma certa desordem nas leis e na instituição em nome do amor às pessoas amadas. Sabe que não se pode viver em comunidade ou em sociedade sem leis e instituições, mas também sabe que essas leis não podem ser tratadas como sagradas.
A discussão séria sobre o papel do clero na igreja (relação de poder entre clero e laicato) e a ordenação das mulheres seria uma forma muito “interessante” de a Igreja Católica testemunhar ao mundo que nossa igreja não é sagrada, mas sim “santa e pecadora”.
 
Dessa forma teria mais credibilidade nas suas críticas às diversas formas de sacralização dos costumes ou instituições humanas, por exemplo, a tentação neoliberal de fazer das leis do mercado algo sagrado.
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