Economia

Jeitinho brasileiro na berlinda? Polêmica do televisor gera discussão internacional

O valor da TV na etiqueta era de R$ 279  – foto: Divulgação 

O caso de um anúncio de  televisão de 55 polegadas, que normalmente custa entre R$ 2.700 a R$ 3.500, anunciada por R$ 279 em um supermercado de Natal (RN), criou uma discussão na internet. Mesmo com a justificativa do gerente, de que houve um erro ao etiquetar o preço, os consumidores queriam levar o produto pelo preço anunciado, bem abaixo do praticado no mercado.

Além do preço baixo, ainda havia opções de parcelamento de 10 prestações de 27,90 ou 24 prestações de 14,90. A ‘promoção’ se espalhou rapidamente e diversos consumidores tentaram comprar o televisor pelo valor da etiqueta. O gerente, tentou intervir, alegando que houve um erro ‘humano’ e que o valor real do produto era R$ 2.999. Os consumidores não compreenderam e, com isso, foi criada uma grande confusão no supermercado.

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O Procon do Rio Grande do Norte foi acionado para tentar solucionar o conflito e atuou a loja, por não deixar os consumidores levar o produto pelo preço da etiqueta. O estabelecimento tem dez dias para se defender.

Para o antropólogo Dênis Pereira, a questão é social e vem de outras gerações. O brasileiro, segundo ele, de tanto se sentir enganado, socialmente e politicamente, faz coisas que considera como corretas e, quando possível, quer tirar vantagens de certas situações.

” Há muitas formas de interpretar essa situação. No texto”Heróis Malandros e Carnaval”,  destaca essa cultura que existe no Brasil de querer levar vantagem em certas coisas. No Brasil, a elite brasileira sempre tirou proveito, deu carteirada, sendo arbitrários com escravos e com os trabalhadores. Com isso, o trabalhador aprendeu que o famoso “jeitinho brasileiro”, era uma forma de  sobrevivência. Quando o pobre olha para o rico e para o político não vê um exemplo de ética. Então, acaba esquecendo que também precisa ser ético. O que mais se ouve da população sobre os políticos é  ‘Se eu estivesse lá faria o mesmo’. Há uma critica, mas ao mesmo tempo uma aceitação que aquilo, de alguma forma, é certo, mas não é”, disse.

Para sociedade que vivemos, segundo o antropólogo, tirar vantagem de situações se tornou algo natural para o brasileiro.

” Como vamos cobrar da população ética, se não temos modelos a seguir? Por isso, enquanto as pessoas puderem, vão tirar proveito de situações. Isso se tornou algo natural. Existe um processo de corrupção em coisas mínimas. Nessa caso da TV, um principio de cidadania poderia fazer a pessoas pensar, que havia acontecido um erro, e não levar o produto. Mas quando o cidadão se resume em consumidor, há outras relações. A regra é basicamente essa: o consumidor paga pelo preço que está na etiqueta. Enfim, a noção de que o trabalhador tem de que é sempre explorado, vai fazer com que ele também queira tirar vantagem de tudo”, explicou.

Sobre a repercussão do caso no exterior, Dênis falou que em alguns países as pessoas tem um comportamento diferente.  “Tenho um amigo que mora na Suíça. Segundo ele, se alguém for vender um carro e estiver batido ou com problema, a pessoa fala a verdade para o comprador. Já aqui no Brasil é diferente. As pessoas pintam o carro e vendem sem falar a verdade. O que querem é passar o produto adiante, isso é forma de tirar vantagem”, pontuou.

Repercussão  

Por meio das redes sociais, o caso chegou até o exterior e os internautas ficaram revoltados, com a falta de sensibilidade e a desonestidade dos brasileiros. O site NewsAbBC, especializado em economia, publicou uma nota no rodapé.

“Brasileiros reclamam que são roubados pelos políticos, reclamam que seus impostos são os maiores do mundo, que o país não oferece empregos e oportunidades, enfim, reclamam de tudo […] e quando eles têm a oportunidade de colocar a cidadania em prática, querem passar os outros para trás. Esse caso da TV, que foi anunciada com o preço errado,reflete bem o caráter de um povo. Eles merecem o governo que têm”, escreveu.

No Brasil, alguns internautas também criticaram a atitude dos consumidores. “Mesmo sabendo que essas lojas têm rios de dinheiro, fiquei encucado com essa situação. É óbvio que se tratava de um erro. Se ainda fosse uma diferença pequena, ok, mas era exorbitante. Um preço que nunca poderíamos encontrar normalmente. Triste, mas vai da cabeça de cada um”, escreveu um internauta.

Mara Magalhães
EM TEMPO

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