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Investindo em Carnaval

Escritor e empresário

Luiz Lauschner
Escritor
e empresário

Já se passaram trinta e dois anos desde a inauguração do Sambódromo do Rio de Janeiro. Na época, justificava-se o custo do templo que, em tese, seria usado apenas para o carnaval, afirmando que a parte inferior da arquibancada seria transformada em salas de aula e assim haveria aproveitamento em tempo integral. Onze anos mais tarde, Manaus também inauguraria o seu depois de algumas peripécias entre as quais a queda do telhado e apresentações antes mesmo do término total das obras. Nos dias de hoje não é usado apenas para carnaval, como para vários shows e até encontros religiosos.

Os investimentos em locais de diversão é muito grande no Brasil. Não falamos apenas de sambódromos, como também bumbódromo e megaestádios de futebol, muitos dos quais subutilizados. Se os investimentos parassem na construção tudo ficaria mais barato. Sabe-se, no entanto que todas as Escolas de Samba contam com verbas públicas para abrilhantar suas apresentações nos dias de carnaval. Melhor seria falar em horas, uma vez que cada escola só pode ocupar o centro das atenções por menos de uma hora. O que era apenas manifestação popular tornou-se um negócio milionário com invejáveis níveis de profissionalização.

A autêntica alegria de brincar o carnaval teria desaparecido? Se o governo não tivesse construído os templos ao rei Momo o povo deixaria de se divertir? Poderia voltar a original alegria que, em última instância, provocou todos os investimentos?

No caso do futebol, temos times profissionais que contribuem com pesados impostos e não necessitam de apoio oficial para sobreviverem. O samba, tampouco, precisa de subsídios para gerar alegria. A desculpa do investimento hoje é a atração turística. As demonstrações das contas entre custo e benefício são nebulosas e é difícil determinar o lucro que uma festa dessas proporciona aos cofres públicos. Se não der resultado financeiro, os gastos poderiam ser justificados pelo efeito social, considerado o enorme contingente de pessoas que dependem dos festejos. Evidentemente não estamos falando dos brincantes e sim dos artistas, metalúrgicos, costureiras sem falar da enorme logística.

A grande constatação sempre é a mesma: O supérfluo é necessário para fornecer o essencial a uma enormidade de pessoas. Ninguém come futebol, religião, música ou outra diversão, mas o show business alimenta e enriquece a muitos. O Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas, fornece mão de obra para as escolas de samba de Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo. O artista que constrói o boi de pano e as infinidades de alegorias do boi bumbá contribui para o carnaval, embora a essência de uma festa e de outra não sejam as mesmas. Os artistas que em período de “entressafra” necessitam ocuparem-se com outras atividades, nem sempre muito rentáveis, extravasam criatividade e suor para trazer um visual cada vez mais bonito ao público. Ganham dinheiro com isso e ajudam a manter a roda da economia em movimento.

Muitas atividades foram iniciadas com incentivo de dinheiro público e hoje devolvem o investimento inicial em forma de emprego e impostos. Até quando a festa que é a cara do Brasil precisa de aporte oficial?

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