Dia a dia

Internos do Dagmar Feitosa participam da Olimpíada Brasileira de Matemática

Participando da Olimpíada de Matemática, jovens infratores descobriram uma forma de mudar de vida - foto: Ione Moreno

Participando da Olimpíada de Matemática, jovens infratores descobriram uma forma de mudar de vida – foto: Ione Moreno

Dos 16.678 estudantes do Amazonas aptos a participarem da segunda fase da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), cujas provas foram realizadas neste sábado (10), dois jovens de 18 e 19 anos chamam a atenção. Os mesmos cumprem medidas socioeducativas no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa, situado no bairro Alvorada, na Zona Centro-Oeste. A classificação para a segunda etapa da dupla revela que a educação, persistência e força de vontade transformam vidas.

Um dos internos que competiu na segunda fase da Olimpíada de Matemática tem 18 anos e não frequentava a escola. Ele surpreende os professores ao se mostrar habilidoso com os cálculos. O jovem conta que foi preso após roubar uma residência acompanhado de um amigo maior de idade. Faltando apenas um mês para ficar em liberdade e voltar à sociedade, ele se diz ansioso e faz planos para voltar à sala de aula e arrumar um emprego.

“Eu já havia cometido vários roubos, mas cometi esse outro erro e voltei para cá, por determinação judicial, agora estou pagando pelo erro que cometi. Eu não estudava, só trabalhava com minha mãe em uma creche. Eu gosto muito da matemática e aqui eu descobri que gosto ainda mais, quando eu sair quero voltar para a escola, voltar ao meu trabalho e cuidar da minha esposa e filha”, declara.

O outro jovem de 19 anos responde por homicídio. Ele conta que antes de ser detido estudava e trabalhava e não imaginava que tivesse tanto talento para matemática. Atualmente, respondendo em semiliberdade, ele conta o tempo para voltar à sociedade, trabalhar, estudar e mudar de vida. “Eu passei um ano no Dagmar Feitosa e estou com um mês na semiliberdade. Comecei nessa vida de crimes aos 14 anos. O crime foi um acerto de contas, eu tinha uma rixa com a pessoa. Antes de vir para cá eu estudava, e pretendo voltar aos estudos ao sair. Já estou me encaminhando para um emprego e quero mesmo mudar de vida, ir pelo caminho certo”, comenta.

O diretor do Dagmar Feitosa, Antônio Juracy Lima, acredita que por meio da educação é possível mudar o destino dos jovens internos. Ele destaca que em sua gestão à frente do centro socioeducativo, oferece uma proposta pedagógica no sentido de transpor a sanção da liberdade.

Segundo ele, atualmente, 61 jovens estão internos no Dagmar Feitosa, dos quais 90% são usuários de drogas. Os principais crimes cometidos por eles são roubo, seguido de tráfico e homicídio. Juracy chama a atenção para o fato de que a maioria dos jovens que voltam para a sociedade abandona a vida no crime, apenas 31% acabam cometendo novos delitos e voltam ao centro socioeducativo.

A secretária-executiva-adjunta da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Socorro Cavalcante, destaca que a maioria dos internos que vivem hoje no Dagmar Feitosa é de famílias que possuem envolvimento com o tráfico de drogas e que não frequentava a escola. Ela acredita que, por conviveram nesse meio, acabaram tendo o crime como opção de vida.

“Normalmente, os adolescentes que estão conosco são de famílias mais complicadas, envolvidas com o tráfico de drogas. Eles crescem nesse mundo de tráfico, de drogas, e muito cedo começam a se envolver com as drogas. Muitos deles chegam na unidade e não têm nem alfabetização, muitos começam do zero. Normalmente, os que têm 2º ou 3º ano do ensino fundamental chegam maios ou menos desperiodizados da faixa etária que não condiz com a escolaridade deles”, ressalta.

Centro incomoda a vizinhança

Apesar do centro socioeducativo existir há muitos anos no Alvorada, a direção da instituição recebe muitas reclamações e pedidos de retirada da instituição do bairro. O diretor do Dag–mar Feitosa comenta que atualmente trabalha para mudar o preconceito que a sociedade tem dos internos.

“Temos uma política invisível; além de ser invisível, ela é rodeada de grades e preconceitos. Os preconceitos de regra são por conta do não conhecimento do trabalho que é feito. A sociedade também sofre uma influência negativa da mídia em relação ao adolescente. Nosso trabalho é assegurar direitos, e eles possuem esse direito assegurado por meio da saúde, educação e assistência psicossocial”, declara.

Por Michelle Freitas

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