Dia a dia

Idosos voltam às aulas em busca de novos desafios

 

Motivados pelo interesse em se alfabetizar e aumentar seus conhecimentos gerais, os idosos têm cada vez mais interesse nos estudos – Fotos: Marcio Melo

Quando voltou para casa depois da aula, em uma tarde distante dos anos 1960, Adilson, então com 10 anos, não imaginava que levaria mais de meio século até sentar de novo numa cadeira escolar mais uma vez. Analfabeto, o coariense teve a vida mudada depois da morte da mãe e do rompimento das relações com o pai, quando só tinha estudado por 1 ano.

Ele morou na rua, fez biscates no seu município até se mudar para Manaus, onde se empregou na construção civil e depois no Polo Industrial de Manaus (PIM). O ritmo intenso de atividades o manteve longe dos estudos, mas, por sua articulação no serviço, perto do sucesso profissional. Adilson deixou de ser empregado e montou a própria firma de refrigeração. Sem saber ler ou escrever, porém, logo começaram os obstáculos. Como descobrir, por exemplo, que sua ex- secretária fechava acordos sem sua participação.

“Ela fazia tudo. Quando fui ao banco pela primeira vez sozinho, foi vexatório. Queria pagar uma conta, mas não sabia preencher o cheque. Pedi para o caixa, para o gerente, para as pessoas na fila, mas todos falaram que não podiam fazer. Fiquei revoltado e comecei a gritar que o dinheiro era meu e que só queria pagar o que estavam me cobrando”, lembrou o técnico.

As atividades culturais relacionados à conquista de conhecimento também estão em alta entre a melhor idade

O episódio ocorrido em 2016 foi transformador. No dia seguinte, Adilson Silva, já um senhor de 66 anos, foi até o Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Professor Paulo Freire e se inscreveu para fazer parte de uma das turmas da escola.

Histórias como essa têm se tornado cada vez mais comuns em Manaus. Se antigamente eram os jovens quem se preparavam para a volta às aulas em fevereiro, hoje é esse público diferenciado que vem ganhando destaque em Manaus. Motivados pelo interesse em se alfabetizar e aumentar seus conhecimentos gerais, os idosos têm cada vez mais interesse, tempo e disposição para se engajar nos estudos e atividades culturais relacionadas à conquista.

Essa busca pelo recomeço está bem retratada no número de matrículas na educação para jovens e adultos, em Manaus, que saiu de 481 alunos, em 2014, para 576 em 2015 e alcançou 619 estudantes, em 2016.

Para este ano, de acordo com dados divulgados pelo Programa Municipal de Escolarização do Adulto e da Pessoa Idosa (Promeapi) da Secretaria Municipal de Educação (Semed), a estimativa é chegar a 825 idosos matriculados nas 32 instituições parceiras, totalizando 96 turmas.

Em todo o Estado do Amazonas, o salto foi dos mais impressionantes, saindo de 1,8 mil alunos em 2009 para 9,8 mil no ano passado.

Ganho social

No entendimento da subsecretária de gestão educacional da Semed, Euzeni Trajano, os idosos que retomam os estudos ou começam pela primeira vez são motivados pela própria família ou pela busca do conhecimento no desenvolvimento psicossocial. Segundo ela, o aprendizado tem uma importância fundamental, vez que a sociedade exclui naturalmente quem não domina o processo da escrita. “Quando a pessoa aprende a ler e escrever passa a enxergar uma nova realidade e se sente incluído socialmente. O Promeapi nasceu pequeno, mas que foi se ampliando ao longo dos anos. Ele surgiu para atender essa demanda de idosos que queria estudar, mas muitas vezes não o fazia por ter vergonha de voltar à escola”, explicou Euzeni Trajano.

Henrique Xavier
EM TEMPO

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