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Histórias de comidas

Escritor e empresário

Luiz Lauschner
Escritor
e empresário

O Brasil é um país formado por pessoas das mais diferentes origens. Essa mistura de gente enriquece nossa história e a nossa culinária. Há dez mil anos, ou mais, o homem descobriu o fogo e o cozimento de alimentos. De lá para cá, continua aprendendo a dominar as técnicas de uso do fogo e do preparo de alimentos.

Somente na última década do século passado intensificou-se a venda em separado de peças de carne. Antes disso só se comprava galinha inteira e o açougueiro separava na frente do cliente o pedaço de carne que ele desejava. Claro que a classificação já estava além do “com osso ou sem osso”, mas ainda longe do detalhamento de hoje. O tempo passa e a gente vai esquecendo-se de como as coisas eram. Por isso vamos relembrar algumas coisinhas.

Arroz à grega como é conhecido, não é conhecido na Grécia, como o nome sugere. Os gregos têm o hábito de fazer do arroz um prato em si, não uma guarnição. No Brasil existe o arroz de carreteiro, a galinhada, arroz de puçá e outros que também são pratos principais. Além disso, na Espanha foi criada a paella em que o pescador usava os frutos do mar não vendidos, misturava com arroz e preparava um prato para sua amada (pra ela).

Os alemães detém a autoria do chucrute, mas são contestados pelos franceses, poloneses, belgas e outros. A brasileiríssima feijoada, criada na senzala com os ingredientes suínos desprezados pela casa grande, também tem sua origem reclamada pelos portugueses que já faziam algo parecido séculos antes. Até mesmo a palavra bistrô tornou-se chique em frontal desprezo a sua origem que não é francesa, mas russa. Antes da segunda guerra mundial havia muitos soldados russos na França que não queriam nada sofisticado para comer, contanto que fosse servido rapidamente. “Bistra”, em russo, pode ser traduzido como “depressa”.

O sistema “self service” nos restaurante é uma invenção de brasileiros, embora o buffet (arrumação de todos as comidas numa mesa) tenha sido usado para alimentar refugiados, principalmente judeus, após a segunda grande guerra, onde não havia tempo para distribuição de comida em pratos. Embora haja registros de jantares neste sistema em séculos anteriores, somente após isso aconteceu a exploração comercial deste sistema.

Em termos de comida, sempre haverá discussão sobre a origem. Afinal, a necessidade de comer estimula a criatividade que acaba virando hábito e sendo explorada comercialmente. A picanha, “rainha do churrasco” só foi separada como peça, a partir de 1980, no Brasil. Os vizinhos argentinos e uruguaios, grandes consumidores de carne, até hoje não valorizam a “tapa de cuadril” como nosotros. No Uruguai, próximo à fronteira com o Brasil há uma churrascaria “La Picaña” num flagrante atentado à língua espanhola, onde o termo não existe. “Picana” é apenas uma peça da carne de avestruz.

As historias de comidas não terminam. Não apenas porque há muitas, mas porque toda hora são criados novos pratos. Muito antes de nascermos e muito depois de irmos sempre haverá pessoas dedicadas a melhorar a alimentação.

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