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Fechada, sinagoga é símbolo da fuga de judeus do Líbano

Escanteada no bairro de Wadi Abu Jamil, a sinagoga Maghen Abraham – a única da capital libanesa – ouve há anos os rumores de que suas portas, fechadas pela guerra e pela instabilidade regional, serão finalmente reabertas.

Ultimamente, notícias voltaram a sugerir a reinauguração iminente desse templo, recentemente reformado. Mas, por ora, tudo indica que são apenas boatos.

“A comunidade judaica prefere esperar até que haja calma na região”, diz à reportagem Bassem al-Hout, um advogado muçulmano que representa os interesses dos judeus vivendo no Líbano.

Recebendo a reportagem em seu escritório, próximo ao calçadão de Beirute, ele cita, por exemplo, o conflito civil travado na vizinha Síria.

Hout herdou do pai o cargo de “mukhtar”, com o que cuida, por exemplo, dos aspectos legais das propriedades dessa comunidade no país. Ele também serve como uma espécie de porta-voz.

Mas, se esperam calma para reabrir a sinagoga, os poucos judeus que ainda vivem no Líbano não parecem ter pressa. O país viveu uma guerra civil entre 1975 e 1990, foi ocupado por Israel e pela Síria e, hoje, enfrenta terroristas em sua fronteira norte. Foi, aliás, fugindo da instabilidade que milhares de judeus deixaram a região.

A reportagem conversou ao telefone com Elie Abadie, 54, nascido no Líbano e hoje rabino em Nova York. Ele deixou o país em 1971, quando tinha dez anos de idade.

“Os judeus saíram do Líbano depois da guerra de 1967, pressentindo que haveria um conflito civil”, diz. Segundo o rabino, essa sensação se acentuou depois que refugiados palestinos foram expulsos da Jordânia, entre 1970 e 1971, e instalaram-se em Beirute. “Alguns deles andavam armados nas ruas. Não nos sentíamos seguros.”

DIÁSPORA

Segundo Abadie, havia nos anos 1950 cerca de 10 mil judeus no Líbano. No início dos anos 1970, eram 3.000. A cifra atual é controversa – enquanto o “mukhtar” Hout diz que são 200, o rabino sugere que sejam 50.

A cifra de Abadie parece mais realista, em um país que travou violentas guerras com Israel -um Estado judaico. Os judeus restantes vivem em segredo e não quiseram dar seu depoimento à reportagem nem mesmo sob a condição de anonimato.

A sinagoga também não pode ser visitada, assim como o cemitério judaico, que a reportagem tem de ver a partir de seu portão carcomido.

“Ninguém sabe quem são essas pessoas”, diz o rabino. Estima-se que sejam em sua maioria idosos. “Alguns estão casados com locais.”

É difícil manter as tradições no país. Não há, por exemplo, comida “kosher” (permitida pelas normas judaicas). Esses alimentos foram trazidos por décadas da Síria, até os anos 1990, mas deixaram de vir com o declínio dessa comunidade ali.

“Como os judeus não estão organizados no Líbano, sem que nem os amigos próximos saibam, não há uma perseguição em massa”, afirma o rabino. “Eles estão calados porque têm medo.”

O advogado Hout discorda dessa opinião. “Não há risco para judeus em Beirute. Os libaneses sabem que existe diferença entre um judeu e um israelense”, ele afirma.

Mas Hout concorda com o risco de “ações individuais” e menciona “palestinos e sírios” vivendo na capital libanesa. Quando a comunidade judaica era mais expressiva, ali, seus membros foram alvo de sequestros pela milícia xiita Hizbullah, que não reconhece o Estado de Israel.

A sinagoga Maghen Abraham, construída em 1925, foi abandonada durante a guerra civil libanesa. Em 1982, o templo foi atingido por um ataque israelense a Beirute.

A reconstrução foi iniciada em 2009, com um investimento estimado em R$ 15 milhões –incluindo uma doação da construtora Solidere, da família do premiê Rafik Hariri, morto em 2005.

Por Folhapress

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