Dia a dia

Favelas em Manaus resultam do descaso público e comprometem a urbanização

Quem mora nas favelas da cidade enfrenta a falta de saneamento e infraestrutura – foto: Ione Moreno

Quem mora nas favelas da cidade enfrenta a falta de saneamento e infraestrutura – foto: Ione Moreno

Com 72.762 habitações em aglomerados subnormais, termo técnico para designar favela, Manaus tem 50 áreas classificadas nessa condição, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base em dados de 2010. À época havia 295.910 habitantes nesses locais. O censo é realizado de 10 em 10 anos.

Trata-se, de acordo com a professora e doutora em política social Elenise Faria Scherer, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), de uma cidade construída com desigualdade de classes. “Em se tratando de Manaus, desde a sua formação ela se constituiu desigual, basta olhar a literatura sobre a cidade desde a sua fundação, atravessando a chamada era da produção da borracha. Ela sempre foi espacialmente desigual”, observa.

Essa desigualdade, que tem como efeito moradias precárias, sem saneamento básico e, sobretudo, sem agua potável, se formou em um processo histórico. “Isto significa dizer que estes bairros, formados por ocupações urbanas desordenadas e provenientes da migração rural–urbana, se constituíram sob o olhar omisso e completo descaso dos governantes locais em diferentes décadas, portanto, explica-se: são completamente desprovidos de políticas públicas”, afirma Scherer, que cita o bairro Cidade de Deus, na Zona Norte, considerado a 10ª favela no ranking nacional pelo número de moradores e completa falta de políticas públicas.

Para ela, o favelismo não ocorre apenas na periferia da capital, mas aparece também às margens dos igarapés, em geral degradados e poluídos. Elenise diz que, embora não sejam comunidades urbanas totalmente isoladas, porque existe um fluxo intrametropolitano e são usuárias do precário transporte urbano, “as famílias destas comunidades vivem de forma segregada espacial e socialmente, e criminalizadas e vitimizadas pela falta de tudo, ou seja, de políticas públicas”.

Impactos
Para o engenheiro e ex-presidente do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), Carlos Valente, as ocupações irregulares em áreas públicas e particulares comprometem um melhor desenvolvimento urbano, impactando diretamente no meio ambiente (poluição dos mananciais, desmatamento, entre outros), na mobilidade urbana e na infraestrutura (energia, água, esgoto e drenagem). “Destaco que a ausência de uma política habitacional pública adequada a atender as faixas de renda de menor poder aquisitivo e as famílias carentes contribuiu significativamente com os passivos instalados pelas ocupações irregulares”, ressalta.

Valente comenta que os principais impactos ambientais causados pelas invasões são: poluição dos igarapés e do lençol freático, geração de lixo sem o devido tratamento, assoreamento dos cursos d’água que causam transbordamentos e alagações, redução da vegetação das áreas de preservação permanente (margens dos cursos d’água).

“Programas como o Prosamim e o Prourbis-Manaus procuram reverter o impacto causado por estas ocupações. Entretanto, são ações reparadoras que podem ser evitadas com a definição e implantação de uma política habitacional adequada às necessidades da população tendo como princípios a produção de lotes urbanizados, combate a especulação e grilagem de terras e principalmente combate ao comércio irregular dos imóveis de interesse social”, destaca.

O engenheiro diz que as ocupações desordenadas (invasões ou favelas) ocorrem e geram impacto mais intenso no convício social, na educação e na economia. Quando se precisa fazer intervenções para melhorar a infraestrutura urbana e o sistema viário, muitas vezes se verifica que estas ocupações apresentam obstáculos que exigem ações de alto custo para resolvê-los.

Zona Leste Lidera
Conforme o disseminador do IBGE no Amazonas, Adjalma Nogueira, a Zona Leste de Manaus concentra 40% das favelas da capital. De acordo com ele, a pesquisa realizada pelo instituto em 2010 apontou que essa zona possui 16 áreas faveladas. Em segundo lugar fica a Zona Norte com outras 11 regiões.

Por Michele Freitas

1 Comment

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  1. raimundo nonato da silva

    1 de fevereiro de 2016 at 17:58

    um trabalho de drenagem fatal para o dese volvimento da humanidade

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